Cada um de nós tem uma chave para a sabedoria universal dentro de si. Abrindo o coração, entrando no silêncio, podemos aceder ao conhecimento que o vento murmura.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Ego e Desapego - parte 1

Pediram-me de escrever sobre o Ego e o Desapego.
Até parece um duo tragicómico com estes nomes. A verdade é que os dois muitas vezes se metem à frente um do outro no nosso caminho espiritual!
Há aqui muitos factores a considerar para se ter alguma noção sobre a questão. Hoje seguem algumas ideias para começar.

O Desapego muitas vezes aparece na nossa vida quando iniciamos um caminho espiritual. Quando começamos a sentir que há mais além deste corpo físico, que há um Eu maior do que este que está confinado ao nosso cérebro e personalidade, normalmente inicia-se um processo em que as posses materiais começam a ser relativizadas. Começa a haver noção de que Ser é mais importante do que Aparecer ou Ter. O desapego material é normalmente uma fase que é bem compreendida e encarado com tranquilidade, uma vez que as necessidades materiais, embora não desaparecendo, resultam menos urgentes ou prementes. A corrida para mais, mais, mais, e a competição com “o vizinho” deixam de ter significado.
Contudo, mesmo o desapego material não é tão óbvio como parece – é preciso segurança interior, um saber profundo que integramos o Grande Conjunto, para poder ter confiança suficiente.... Muita gente continua a precisar de um sentimento de segurança material, o que dificulta progressos no seu caminho espiritual: “Se vou fazer o que o meu coração diz que sou capaz, como vou sobreviver? Será que tudo vai correr bem?”

O exemplo do desapego material, já é uma indicação que o apego tem a ver com as circunstâncias desta vida específica em que estamos agora, limitada pela idade a que o corpo físico, e a personalidade associada, possam chegar. Mas no nosso caminho vamos progressivamente descobrindo que há mais do que isso, que temos vidas anteriores e havemos de ter vidas depois desta. Que há um Eu que vai além da personalidade…. Infelizmente somos constantemente seduzidos a confundir o Eu com a personalidade!
E aqui chegamos ao Ego – que mais parece uma ferramenta psicológica para garantir ao sistema físico que haja sempre energia emocional suficiente para funcionar! Por outro lado, por muito má fama que tem o Ego, penso que também devíamos honrar a sua origem: sem Ego, a nossa sobrevivência como espécie seria muito mais difícil.

Mas de facto, o Ego prova-se problemático em muitas situações. Todos conseguimos identificar quando temos à nossa frente uma pessoa com um Ego demasiado grande – sentimos por exemplo a dificuldade em encontrar soluções de compromisso com pessoas indevidamente orgulhosas; sentimos dificuldade em comunicar com pessoas que sempre querem ter razão… o “Ego” (no uso comum do termo) denuncia em geral uma identidade desproporcionalmente demarcada, que procura uma manipulação emocional do outro para se confirmar como personalidade.

Mas o Ego manifesta-se de maneiras muito mais subtis em todos nós – quando as nossas acções são motivadas por necessidades emocionais. O Ego forma-se baseado em noções temporais: condicionado pelas experiências do passado e pelas expectativas acerca do futuro.
O Eu superior, pelo seu lado, não é temporal, nem local – vive no Aqui e Agora, em União com Tudo que É. Se tencionamos unir-nos com o nosso Eu superior, e viver em conformidade com quem SOMOS no fundo do coração, temos que confrontar-nos com o nosso Ego.
Confrontar-nos com as nossas necessidades emocionais, de não querer ficar magoada, traída, abandonada. Confrontar-nos com os nossos medos: de não ser capaz, de ficar sozinha, de não sentir realização pessoal.
A partir daí perceber como aconteceu este condicionamento: sendo necessidades emocionais, dizem respeito a acontecimentos que ocorreram nesta vida em específico. Num plano maior, nunca estamos sós, há amor em abundância para todos, estamos todos juntos nisso. Percebendo isso, podemos abrir mão deste condicionamento – e do comportamento do Ego associado.

Agora a questão fulcral: como saber se as nossas motivações são puras e provenientes do nosso Eu superior?
Para mim, vou aplicando (dentro das minhas capacidades) os ensinamentos dos grandes Mestres, nomeadamente estes que dizem respeito ao amar o outro como nos amamos a nos próprios ; de tratar os outros como gostaríamos de ser tratados; e de avaliar se algo é para o bem de uma pessoa e de todos.
Também vejo em que medida as minhas motivações são incondicionais: preciso algo em troco para o que dou? O que está em jogo para mim? Há alguma necessidade de satisfação emocional disfarçada?

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