Cada um de nós tem uma chave para a sabedoria universal dentro de si. Abrindo o coração, entrando no silêncio, podemos aceder ao conhecimento que o vento murmura.

domingo, 11 de abril de 2010

Água da Vida

Hoje o tempo está lindo. Mas o meu corpo está entorpecido; as tensões dos últimos dias, os encontros por vezes emocionais e difíceis, e a viagem de carro até aqui, sobrecarregaram os meus cervicais já por si frágeis. Sinto o pescoço, o crânio, os ombros e as costas… e pergunto-me se vou conseguir caminhar sem problemas.
Mas a esta hora de manhã, o sol já brilha – uma brisa fresca traz a promessa de um dia sem nuvens. Um dia óptimo para subir a serra. E respirando o ar límpido, ouvindo os meus filhos falar como vão descer as encostas de trenó, a dor começa a recuar. Vamos.
No início do caminho para cima, o sol ainda não derreteu o gelo da noite – por baixo dos nossos pés a água sólida vai estalando.
Quando chegamos ao Prado das Pozas, vemos o esplendor todo da neve que se estende pelo vale, cobrindo os cumes da serra que o rodeia.
Há sol, vento, neve… e pequenas manchas onde a neve derreteu, formando riachos que ouvimos e vemos passar por baixo da camada de neve.

De repente, a beleza da Natureza atinge o meu coração como se fosse um raio que abre a mente, o corpo, a alma. De repente, sinto tudo junto ao mesmo tempo – a terra sólida que me sustenta, a neve cristalina por baixo dos pés, a frescura limpa do ar a entrar nos pulmões, a luz intensa do sol, o som da água que corre, o canto da cotovia a voar. Sinto tudo ao mesmo tempo, por fora e por dentro, um momento sem início e sem fim.
Ajoelho-me para beber da água que passa. Parece que é a primeira vez que bebo água – admiro com surpresa a força vital que me é transmitida.
O meu corpo todo é convidado a abrir-se para que possa aprender com a água a fluir… Aprender como transformar com a energia da Luz, deixando a imobilidade e frieza das ideias formadas, dos conceitos fixos, para começar a fluir… Não ficando mais presa aos obstáculos e pedras no caminho, mas reconhecer dificuldades, aceitar que existem, para poder fluir a volta, flexível, transmutando continuamente. Aprender com a água que a força da fluidez é imparável; pode estar escondida por baixo das camadas mais sólidas, mas acaba sempre por surgir, num fluxo sempre crescente enquanto houver matéria mais dura para transformar.
Os meus sentidos são convidados, para reconhecer os reflexos da Luz na turbulência do riacho, cada gota de água parece irradiar o seu próprio raio de sol – um convite para aprender que também nós recebemos exactamente o raio da Luz que nós é destinado, para servir de espelho desta Luz para tudo que nos rodeia, cada um irradiando conforme É, todos juntos o rio da Luz Universal.

As minhas células todas recebem o convite de se deixar impregnar pela beleza e perfeição da água… e de perceber o significado da entrega à nossa verdadeira natureza. A água bate contra a pedra, procura uma solução para poder fluir; se não pode contornar o obstáculo, acumula força para abrir uma saída, para que possa existir respeitando a sua natureza fluida. De igual modo, não adianta negar a nossa própria natureza: não respeitar quem Somos, é como tentar barrar o caminho à água, pensar que se possa dominar a Natureza….

Respiro fundo, sinto o Tudo a passar pelo corpo: a terra sólida que me sustenta, a neve cristalina por baixo dos pés, a frescura limpa do ar a entrar nos pulmões, a luz intensa do sol, o murmurar da água que corre, o canto da cotovia a voar, os risos da minha família, sons de prazer e divertimento. Sinto tudo ao mesmo tempo, por fora e por dentro, um momento sem início e sem fim.
Quantas vezes, na meditação, imaginei este momento? É aqui e agora, que percebo mais uma vez que a Terra é verdadeiramente como a nossa Mãe, nutrindo, abraçando, fazendo sentir que nunca estaremos sós ou desamparados.

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