Cada um de nós tem uma chave para a sabedoria universal dentro de si. Abrindo o coração, entrando no silêncio, podemos aceder ao conhecimento que o vento murmura.

terça-feira, 27 de abril de 2010

A magia do abraço

Eles estavam à espera, como se fosse à espera de um veredicto. Ela cabisbaixa, ele de mãos nos bolsos, hesitante. Tinham vindo para tentar saber o que se passava entre eles, entender porque não conseguiam mais chegar a um entendimento mútuo satisfatório e duradouro.As razões que levaram aos então namorados, de juntar os trapos e iniciar uma vida em conjunto, pareciam ter deixado de existir. Já não sabiam dizer ou explicar bem porque quiseram estar juntos.
No decorrer da relação, pareciam ter perdido de vista o que levou a querer estar juntos: para sentir uma complementaridade mútuo, segurança e apoio. Para crescer juntos e formar família.
Pareciam ter esquecido que nunca nada é por acaso, e que as nossas escolhas reflectam necessidades de crescimento. A escolha de um parceiro , em condições normais, serve mais do que os objectivos do ego, tal como ter um(a) esposo(a) para mostrar à sociedade (e interiormente) o seu valor, a segurança de um tecto por cima da cabeça, ou a satisfação dos desejos.
O parceiro com quem estamos a partilhar a nossa vida, serve-nos de espelho, um espelho da alma, que nos mostra (in)directamente quem nós somos e onde estamos no nosso desenvolvimento; vemos através dos olhos do outro as nossas forças e debilidades, as nossas alegrias e tristezas, o nosso amor e as nossas fraquezas. E é uma experiência mútua, que alimenta a alma e faz crescer aos dois na partilha.
Mas agora ela sentia-se só, mesmo na presença dele, mal compreendida, perdida. Ele até conseguiu sentir o desespero dela, mas a sua insegurança era de tal maneira grande, que em vez de a tocar e procurar contacto, chegava a ficar fora de si, como se fosso um outro, a gritar com ela.
Dois seres vulneráveis, ambos com necessidade de se aconchegar, de ser acompanhado, de se fortalecer... ambos com receio de mostrar a sua vulnerabilidade ao outro. Ela a esconder-se atrás das feridas que namoros anteriores tinham provocado nela, e que a fizeram sentir humilhada e abandonada.
Ele a esconder-se atrás da impotência perante uma mulher que receava um duplo significado em tudo o que ele fazia ou dizia, baseando-se na sua experiência anterior.
E ambos tremendamente sós.
Entre eles, um silêncio ensurdecedor.
As lágrimas começaram a brotar nos olhos dela, e ele não dava sinais de ver, empurrando a areia do chão com a ponta do sapato.
Virei-me para me afastar, para que se pudessem sentir a sós, para se pudessem abraçar.
O contacto físico, o abraço, pode fazer milagres: ao entregar-nos aos braços do nosso parceiro, podemos sentir que o outro está aí para o que der e vier.... e sentir que o outro nos aceita, mesmo em estado vulnerável e triste.
Mas o sentir não é o suficiente. A partir daí é preciso a manifestação: dizer o que pesa no coração, exprimir as dúvidas, viver os medos. Ao calar, calámos à nós. Em vez de evitar conflitos, estes agravam se. No silêncio, o afastamento é gradual mas dificilmente reversível. Calar o coração, evitar o confronto, é uma traição a nós próprios, porque deixamos de ter oportunidade de Ser, de criar as condições para uma relação plena e harmoniosa - e acaba por ser uma traição ao parceiro que mesmo querendo, não tem hipóteses justos para te compreender, ou mesmo para saber onde está nisto tudo.
Pode haver muitas razões para não querer falar, para se fechar em copos, para evitar o diálogo. Todas podem ser razões válidas para quem foge da abertura. E não há ser humano que nunca receou falar numa situação em que teria de mostrar as suas fraquezas. Mas se nos braços do nosso parceiro não encontramos a coragem de nos enfrentar, realmente podes perguntar-te se fazes bem estar ainda nessa relação.
É precisamente no abraço que pode começar a reconciliação - porque sentimos no corpo o que nos dá tanta saudade: a união sincera. E podemos sentir através do corpo a compaixão e aceitação do outro, o calor humano, o amor.
Ou a ausência do amor....
Quando me virei, vi que ele estava, apesar de uma mal desfarçada falta de jeito, honestamente a tentar abraçá-la. Vi também que ela ainda não conseguiu responder ao abraço, encolhida sobre si própria, de braços caídos.
Mais tarde soube, que tinham passado o dia a falar e aproximarem-se.
Faço votos que possam começar a sentir o que os una. Já demasiado tempo tiveram que lidar com o que os separa. Espero do fundo do coração que encontram a resposta, ao interrogarem-se sobre o compromisso que fizeram entre eles, quando se juntaram neste dia que agora parecia tão longínquo...

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