Cada um de nós tem uma chave para a sabedoria universal dentro de si. Abrindo o coração, entrando no silêncio, podemos aceder ao conhecimento que o vento murmura.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

A imagem da minha saudade

O Nascer do Sol sobre a Annapurna (Nepal)
 
Olhando esta imagem não posso deixar de sentir uma melancolia, uma saudade profunda.... Gosto mesmo das montanhas. Nunca estive nas Himalayas (pelo menos, nesta vida), e só posso imaginar o clima extremo que se encontra aí, um ambiente em que o Ser Humano não é suposto viver.
É uma beleza dura, dos elementos num estado puro. A Mãe Terra empurrou enormes quantidades de rochas e pedras, que em tempos formaram os fundos dos oceanos, até alturas impressionantes, onde a neve nunca derreta, para poderem tocar no Céu.
As montanhas lembram-me como tudo na vida é cíclica, efémera e ilusória - mesmo a matéria mais maciço transforma-se sob a acção dos elementos. Nada fica igual de um momento para outro. O Sol nasce, atravessa o firmamento; as nuvens passam e deixam caír as suas chuvas e neves, a montanha eroda para acabar em forma de areia, levada pelos rios, para ser depositada no fundo do oceano. As mudanças de tempo seguem-se umas às outras como emoções na vida humana - ora chove, ora se faz sol - e a chuva lava tudo, aplana a montanha, lima as arestas afiadas às pedras, desfazendo os nós mais duros, como se fossem lágrimas a lavar a alma, libertando a dor do coração.
Tudo muda, tudo se tranforma... num movimento perpétuo de criação e de desconstrução contínua.
Nas montanhas, o ambiente é duro e a natureza indomável. Mesmo assim, é nestes sítios que sinto uma proximidade quase palpável daquilo que chamamos "A Fonte".
O céu, de um azul intenso, profundo, estende-se à volta, sem fim à vista. A sensação é de uma esfera, como se estivessemos numa bola de cristal imenso.
A Luz vem de uma fonte identificável, mas é omnipresente, parece querer atravessar-nos. A abundância luminosa existe para todos que se quiserem expôr a ela, sem distinção, sem excepção. 
Todo o ambiente parece existir para exprimir aquela força que sentimos pairar no plano de fundo - quase como se a Fonte só é potencial, contendo Tudo que É, mas tudo ainda em potência, ainda sem forma. Um potencial de uma Harmonia sem igual, uma compaixão que tudo engloba, o "Lar" de tudo que é, onde estamos bem-vindos, queridos e amados. 
Como se fosse a mão de uma divindade que segura a bola de cristal azul em que nos encontramos.
E a Terra, através dos seus elementos, através da sua corporalidade, do seu carácter tão obviamente física, dá à Luz as formas contidas na Fonte, as formas que exprimem a sua força.
Sentimos que também nós somos expressões da mesma força da Fonte - e que fazemos parte deste movimento perpétuo da criação.
É um encontro, entre a infinidade - a eternidade - e o finito, o temporário, o efémero. Um encontro que ao mesmo tempo é um confronto....Sabemos, algures no fundo,  que toda a criação tive origem na Fonte, por isso, também a nossa Alma. Separámos ou fomos separados da Fonte para encarnar como ser humano. Estando separado da Fonte, procuramos harmonizar-nos, para ter novamente o contacto com o Eterno.... e sentimos dentro de nós  que as nossas emoções - os nossos apegos, desejos, medos - dificultam a tarefa de encontrar o caminho de volta. Há alturas em que parece que estamos como perdidos no meio da montanha, a mercê do intempérie que nos acontece, sem noção qual o caminho a escolher para saír da situação.
A montanha, na sua grandeza e imponência, põe-nos à prova, pede que nos nos encaramos honestamente, com realismo e coragem. Pede para erguermos à altura da situação, para que assumimos a nossa responsabilidade. A experiência de uma caminhada longa pela montanha pode ser por isso, muito especial.
Enquanto caminhas aí, pequenina na paisagem grandiosa, sentes o desafio: serei capaz de lidar com as limitações que a minha vida como ser humano me apresenta? Ou seja, serei capaz de enfrentar os meus medos e receios?
Lembro-me bem das primeiras vezes que fiz caminhadas na montanha: não sabia o que me esperava, e não sabia bem lidar com o desconhecido. Cansava-me a subir, e desmotivava-me ao pensar que só estava no início....queria desistir já para evitar a eventualidade de fracasso. Pensava em todos os azares que podiam ocorrer: Como seria no caso de algum acidente, ou se não encontrassemos água? Onde dormir lá em cima? Haveria animais que pudessem fazer mal? E o tempo, haveria chuva ou frio? Depois começava a sentir a altura, percebia que podia caír fundo se escorregasse...
A montanha ensina-nos que não nos livramos dos nossos receios, se não os encaramos. Ensina que é preciso confiar em nós, na nossa força, mas também nos avisos que o nosso sistema dá - o receio da altura ajuda a não aproximar-te em demasia do abismo.  Ensina-nos a encontrar um equilíbrio entre os nossos ideias e as nossas capacidades: podemos querer chegar alto, mas temos que respeitar os nossos limites.
Aprendemos estar atentos ao momento, respirar com calma, mantendo a concentração no corpo; caminhar mantendo um contacto estável e seguro com o chão.
Aprendemos que os nossos receios e medos se apresentam para encararmos, aqui e agora. Não vale a pena fugir, não vale a pena esconder.  Só contas contigo próprio.
Na beleza crua da montanha, aprendi algo que me ajuda todos os dias: se quero caminhar, então tenho que fazer os passos, aqui e agora.

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