Cada um de nós tem uma chave para a sabedoria universal dentro de si. Abrindo o coração, entrando no silêncio, podemos aceder ao conhecimento que o vento murmura.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

quando a vida não é o que pensávamos que seria

Estavamos na berma da estrada. Eles tinham vindo para trazer uma fotografia da sua filha. Uma cara rosada, de olhos  e punhos minúsculos fechados, dormindo sobre uma mantinha.
Eles mostravam-me a fotografia, com a voz a sufocar em lágrimas.
A esta hora da tarde, a estrada começava a ter novamente movimento, e os carros, com as janelas bem fechadas para não afectar o efeito do ar-condicionado, passavam com uma velocidade que parecia exagerada.
A filha, com duas semanas de vida, estava no hospital, com sintomas estranhas e potencialmente graves, para os quais os médicos não estavam a conseguir encontrar explicação. Os pais estavam desesperados. Os primeiros dias da vida da filha, para os quais eles tinham ansiados, estavam a tornar-se difícil de viver. Foi suposto ser um tempo de celebração da vida, as boas expectativas criadas pelas ecografias e análises durante a gravidez fizeram, com que tinham imaginado os primeiros dias como um período de encontro com a esperança, uma promessa para uma família feliz e saudável.

Tinham gostado de pensar nos dias em que uma nova criação, a sua criação, estaria a acordar para a vida, a sorrir para um futuro em conjunto.

Mas a filha não estava saudável, e a realidade parecia mais um pesadelo do que um sonho. Situações de doença com crianças são em si complicadas, mas quando se trata de uma bebé recém-nascida com problemas, as respostas são muito difíceis. O que dizer?
Podia ter-lhes explicado o que estava a ver, o que a intuição me dizia acerca do estado de saúde da menina.
Podia ter-lhes falado sobre como uma alma nunca vem por acaso, que todos nós, enquanto almas, fazemos a escolha para uma determinada vida. O caminho da alma não é limitado a uma vida só, estende-se por multiplas vidas. Cada vez que a nossa alma incarna num corpo humano, propomo-nos a nós próprios de aprender uma lição específica, para que a alma se aperfeiçoa, para que cresce na sua energia e capacidade de Ser.
Cada alma sabe que vai nascer numa determininada família, que tem a sua personalidade e problemas próprias. Sabe quais as questões maiores que vai encontrar com o corpo que escolheu - seja por causa da estrutura emocional da mente ou pelos aspectos físicos deste corpo. É uma espécie de contrato que fechamos antes de incarnar novamente - não só connosco, mas com a "família da alma" - os seres mais próximos de nós, que vamos encontrando em vidas sucessívas. E o contrato não obedece obrigatoriamente à logica que os pais ensinam os filhos. Os filhos também podem vir para ajudar aos pais aprenderem a sua lição - mesmo que isso implica viver por pouco tempo ou com uma doença grave, ou "apenas" um episódio de ameaça de vida.
Podia ter-lhes lembrado como tudo que encontramos numa vida nos vai preparando para a morte. Aprendemos através da doença grave que existe uma dimensão além do material, que há algo imenso, infinito, eterno em cada um - e que chamamos a essa dimensão o Espírito. Contactar com o Espírito não só dá profundidade a nossa vida, como ensina não ter apego ao corpo. Estamos a ser preparados para o re-encontro no além - para podermos avaliar a nossa vida, a aprendizagem, o progresso.
Podia ainda ter dito para tentar respeitar o espaço da sua filha, confiando que ela vai ser quem precisa de ser - e que apoiam-na incondicionalmente, independentemente como será a vida dela. Pedir-lhes para não inundar a menina com pensamentos tingidos pela fatalidade , partindo do princípio que ela não está em ordem, mas sim olhá-la com confiança que ela há de crescer de tal forma que pode fazer tudo que quer e precisa de fazer na vida. Observá-la para ver todos os sinais, sem preconceitos, sem ver  à partida doença e desgraça.
Mas como ia falar nisso, quando eles tinham vindo procurar conforto? Como podia falar do que estava a sentir, quando eles tinham vindo procurar força para enfrentar o batalhão de médicos e enfermeiras - que faziam o que na situação dada, podiam, mas que nunca podiam ter suficientemente ternura e atenção para a sua filha, tão desejada e amada.
Como podia falar quando eles só queriam perceber que tudo, por o que estavam a passar, fazia sentido...

A tarde estava a recuperar do calor do dia. Uma brisa acariciou as nossas caras, os pássaros e as cigarras cantavam. Os carros que passavam, já vinham com as janelas abertas, deixando escapar pequenos farrapos de música. Não havia mais que fazer do que ficar abraçados.

PS. Acabámos de falar sobre todos os assuntos no dia a seguir. Os pais tranquilizaram, encontraram força para se apoiarem mutuamente, e para dar conforto à sua filha. A menina está a receber todos os cuidados médicos necessários para que recupera. Os análises não identificaram ainda nenhum defeito congénito. Os pais estão com ela, estão juntos.

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