Cada um de nós tem uma chave para a sabedoria universal dentro de si. Abrindo o coração, entrando no silêncio, podemos aceder ao conhecimento que o vento murmura.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Limpar o nosso karma, limpando as nossas emoções

Acontece que há momentos em que temos dificuldade de lidar connosco próprios.
Momentos em que sentimos algo por dentro que parece não ter solução, uma sensação que parece perseguir-nos, que nos deixa andar à volta da batata quente sem fazer progresso, ou apenas um passo a frente para ter que fazer logo a seguir um passo para trás....
Há pessoas que se perguntam: porque não me sinto bem comigo? Outros não conseguem perceber porque não encontram o seu caminho; ou porque não conseguem tomar a decisão de sair de uma situação que obviamente os prejudica, em que não são felizes...
Acontece que há momentos em que parece que estamos presos numa prisão, construído a partir do nosso próprio pensamento, dos nossos próprios sentimentos e emoções e do nosso próprio comportamento.
Fonte da imagem

Quando encontramos momentos destes, é bom realizar que é mesmo assim: são os nossos pensamentos e os nossos comportamentos que prendem e bloqueiam. Construímos, pensamento a pensamento, acção a acção, a nossa própria parede - contra a qual  batemos... (um assunto sobre o qual já foi escrito aqui, por exemplo neste post ou neste, entre outros).
Esta realização para mim sempre foi reconfortante - porque significa que ganhamos de volta a responsabilidade sobre a nossa vida; é um reconhecimento da nossa própria força ;)
Se construímos pedra a pedra, a parede contra a qual teimamos bater, também podemos desconstruir a mesma parede - pedra por pedra. Limpando as cicatrizes deixados pelas nossas acções, mas também as feridas causadas pelas nossas reacções emocionais às situações que encontramos ao longo da vida. Limpando a carga emocional que trazemos às costas - limpando o nosso corpo emocional. De facto, estaremos a limpar o nosso "karma" porque é nesta limpeza que aceitamos encarar as consequências dos nossos actos, das nossas palavras, dos nossos pensamentos.

Quando comecei a ver isso, percebi também a importância de dar atenção à maneira em que lidava com as emoções. Qual era a razão que me levava a guardar para mim certas coisas?
Olhando para as reacções típicas a emoções fortes, vemos que há três reacções mais comuns: exprimimos, reprimimos ou dissipamos as nossas emoções.
Podemos exprimir emoções, actuando de acordo com elas, ainda preso no estado emocional - o que muitas vezes resulta em problemas para nos ou outros. Podemos dizer coisas que afinal não devíamos ter dito, fazer coisas que afinal não eram muito sensatas...
Podemos tentar enterrar as emoções, ou negar que as temos. Infelizmente, esconder ou enterrar emoções é cansativo e desagradável...ainda por cima, emoções escondidas podem se tornar monstruosas quando está escuro. Podem irromper num momento embaraçoso...
Podemos dissipar as emoções, fugindo em actividades que distraem e para as quais podemos canalizar a energia não-desejada. Uma carreira, entretenimento ou voluntariado podem servir de fuga ou estratégia de distracção - embora tenham naturalmente também outra função. Parece óbvia que a dissipação é a menos prejudicial das três estratégias - mas é um desperdício de tempo de vida, levando-nos para longe das acções autenticas que seriam possíveis se fossemos capazes e dispostos a encarar as nossas emoções. E muitas vezes, actividades que não são autenticas, em que não estamos por razões honestas, são igualmente um desperdício do tempo de terceiros.

Existe ainda uma quarta possibilidade: viver a experiência das nossas emoções sem actuar. Pode parecer difícil, e é mesmo difícil inicialmente, mas esta alternativa poupa-nos a nós e aos outros as consequências de acções desesperadas e prejudiciais; evitamos o prejuízo psicológico de repressão emocional, e o desperdício da dissipação.

É mesmo difícil, inicialmente, olhar para as nossas emoções enquanto surgem - estamos mesmo muito habituados a reagir de modo convencional, não dando muita atenção.
Mas podemos também olhar para as emoções com respeito e interesse. Não fechar a porta na sua cara, nem convidar para elas entrar e ficar connosco.  Podemos gostar ou não gostar das nossas emoções, mas deixar que existem, tal e qual como são.
Sem comentário.
Sem julgamento.
Sem intervenção ou opinião.
Permitindo que existem, podemos começar a entender claramente de que consistem: emoções são pensamentos, mais energia física. Ao treinarmos a mente de abrir mão dos pensamentos associados, dando em vez disso, atenção à sensação física, as sensações  começam - por si só - a assumir a sua forma natural.
Quando começamos a sentir as nossas emoções - podemos começar a sentir quem somos.

Emoções não são boas ou más em si. Sensações de irritação, de medo, de alegria, de paixão, de raiva ou de ciumes, e todas as outras, existem. Fazem parte da nossa estrutura.
Emoções começam a ser problemáticas quando o pensamento as empurra para ser complexo e entrar em conflito umas com as outras. Na tradição tibetana, é dito: ficar à mercê de emoções em conflito é como ser um cavalo montado por um macaco maluco. O macaco exige que viras para a esquerda e fere os flancos com os esporos - enquanto forçar-te igualmente para a direita, puxando o freio na tua boa sangrente.
Somos os nossos próprios cavaleiros malucos quando julgámos as nossas emoções: "Eu não devia querer magoar a minha esposa que amo" ou "não me devia sentir miserável porque de facto não me falta nada". Continuamos a nossa viagem insano se não resolvemos a situação, alimentando o caos e a confusão com pensamentos que afirmam a dor provocada pela emoção: "Estás a ver como corre mal, é sempre assim"....

Ao sentir as emoções, permitindo que percebemos quem somos, podemos abrir espaço entre pensamento e sensação física - para que a compaixão possa entrar no vazio criado.

Encarar as nossas emoções é difícil - é requerido determinação e gentiliza direccionada para nós próprios, perdoando à nós as nossas fraquezas. Se viramos a cara no momento em que as coisas se mostram duras, não haverá progresso...
Sem julgar, sem etiquetar, vendo se conseguimos prolongar o espaço entre ser provocado e a nossa acção seguinte.... abrimos espaço vazio em que podemos encontrar clareza e entendimento - e assim, a possibilidade de escolha.

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