Cada um de nós tem uma chave para a sabedoria universal dentro de si. Abrindo o coração, entrando no silêncio, podemos aceder ao conhecimento que o vento murmura.

domingo, 15 de julho de 2012

o macaco louco

Em geral, temos três estratégias que utilizamos quando surgem emoções fortes. Podemos exprimir, reprimir ou dissipar as emoções. (*) 

Podemos exprimir emoções, e agir com base nelas - mas que muitas vezes isso resulta em problemas para nós mesmos ou aos outros.  
Podemos reprimir as emoções, negando ou enterrando o que sentimos. Infelizmente, mantendo emoções enterradas é desagradável e cansativo - e emoções escondidas podem se tornar monstruosas no escuro. Elas podem explodir em horários inconvenientes

Podemos dissipar emoções, ocupando-nos com actividades de distracção para as quais podemos canalizar a energia indesejada. Carreiras, hobbies, diversões, e "boas acções" são todas dissipações - embora, claro, todas com as suas funções. Dissipação é a menos nociva das três opções - mas desperdiça nossas vidas, desviando-nos das acções autênticas que levaríamos a cabo se estivéssemos dispostos a enfrentar as nossas emoções. E vamos ser sinceros, muitas vezes a actividade não-autêntica desperdiça também o tempo das outras pessoas.

Há uma quarta possibilidade: experimentar as nossas emoções completamente, sem agir sobre eles. Apesar de ser difícil no início, esta alternativa poupa a nós e aos outros as consequências de acções
desesperadas e prejudiciais, poupa o dano psicológico da repressão emocional, e poupa o desperdício da dissipação.

Na meditação, podemos simplesmente estar com as emoções - não expressando, reprimindo, ou dissipando-as. Desenvolvemos essa capacidade durante a meditação, quando não precisamos de agir e não somos constantemente provocado por acções dos outros. Com a experiência, podemos aplicar o método em situações difíceis da vida.


Quando meditamos com alguma disciplina e regularidade, notamos que a mente acalma e se torna mais clara, mais transparente. Nesta calma mental, podemos chamar e observar as emoções a que estamos sujeitos. Pensando numa situação que provocou alguma emoção, lembramo-nos de como nos sentimos na altura. Através de observação, podemos dividir as emoções em dois componentes: o pensamento por um lado, e a sensação corporal por outro lado. Assim, as emoções são simplificadas e clarificam-se. A sensação física ligada à emoção pode permanecer intenso, mas é mais clara. Se por exemplo estamos sujeitos à desilusão e frustração, podemos sentir na zona da vesícula um caldeirão quente de bílis. Deixamos repousar a atenção plena neste local, observando com dedicação e o local torna-se fresco; obviamente ainda com um fluxo intenso, mas já não tóxico. Com a prática, a energia que se liberta, até pode ser aproveitada de forma positiva!

As emoções se tornam problemáticas quando, através do pensamento, arranjamos complicações e deixamos que elas entram em conflicto uma com a outra.  Na tradição tibetana, diz-se que, quando estamos sujeitos a emoções em conflicto, somos como um cavalo montado por um macaco louco.  
O macaco exige que viramos à esquerda, castigando os nossos flancos com as suas esporas - ao mesmo tempo, força-nos à direita, empurrando o freio de metal na nossa boca, já a sangrar. Tornamo-nos os nossos próprios cavaleiros doidos quando julgamos as emoções: "Eu não deveria querer magoar a minha esposa que eu amo" ou "eu não deveria me sentir miserável porque tenho tudo o que preciso" ou "eu deveria querer vê-lo mais muitas vezes" ou "Eu sou uma pessoa espiritual, deste modo eu não deveria querer tantas coisas - não tanto".  
Meditando sem julgamentos, diminuímos o conflito interior. Libertamos tais pensamentos e regressamos simplesmente à consciência das coisas. Permitimos que o caos e a confusão surgem - mas nós não adicionamos nada - o que seria o caso se tentássemos consertar alguma coisa. 
Encarar as emoções é difícil, mas como tudo na meditação, torna-se mais fácil com a prática. O encarar das emoções  pede equilíbrio, determinação e gentileza para connosco. Se paramos logo que as coisas correm mal, fazemos progresso nenhum! Se vamos forçar-nos para seguir, quando o medo ou a dor parecem insuportáveis, ficamos revoltados e a próxima vez, não vamos querer meditar. Podemos encontrar o nosso próprio ponto de equilíbrio, mas apenas experimentando. 

Quando os sentimentos são muito fortes, demasiado para poder continuar com esse método - podemos respirar fundo e descansar um pouco, e recomeçar a meditação. Assim que sentimos a emoção, voltamos a  - libertá-la e voltamos com a atenção à respiração.  
Permita que sua mente acalma no espaço tranquilo do seu espaço interior. Se não puder manter o silêncio interior, tente algo diferente, em vez de começar a moer e criar aversão. Uma boa opção é o exercício físico  que, tal como a meditação, corta o pensamento obsessivo e liberta o excesso de energia de forma construtiva. Se não pode fazer nada, e percebe que continua a agir através de uma emoção destrutiva, tenta manter de alguma forma uma consciência meditativa. Como fazer? Procura deixar uma lacuna entre o momento em que é provocado e a sua próxima açcão. Nesse espaço vazio pode ver com clareza - e, portanto, terá a possibilidade de escolha....

(*) Do ponto de vista budista, estas são estratégias de avidez, desprezo e repulsa


Texto adaptado de "Roaring Silence" - Ngakpa Chögyam & Khandro Déchen

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