Cada um de nós tem uma chave para a sabedoria universal dentro de si. Abrindo o coração, entrando no silêncio, podemos aceder ao conhecimento que o vento murmura.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

A paz começa quando tornamos amigos de nós proprios

“Quando começamos com a prática de meditação, ou iniciamos uma outra forma de prática espiritual, pode acontecer pensarmos que assim vamos ser pessoas melhores. Este pensamento é uma agressão subtil contra quem somos de verdade. É parecido com o pensamento: se fazer exercício físico, vou me tornar alguém melhor. Ou se tiver uma casa mais bonita, serei alguém melhor.
Mas o amor e bondade (Maitri, em sânscrito) em relação a nós próprios não significa que temos de nos libertar de algo. Maitri significa que ainda podemos ser doidos, ou zangados. Podemos continuar a ser tímidos, ou invejosos, ou estar cheios de sentimentos de inferioridade.
Meditação não visa libertar-nos de nós para nos tornar uma pessoa melhor. Visa criar uma amizade com quem já somos.” (Pema Chodron, em: Comfortable with Uncertainty).

Para a maioria das pessoas que lêem este texto, a citação até pode parecer um remate para uma baliza aberta: Sim, claro, em vez de tentarmos modificar-nos devemos tentar ser quem somos, igual a nós mesmos…
Mas “ser quem somos” é muito mais fácil dizer do que fazer. Se olharmos para a nossa prática de meditação, podemos verificar isso. Ao sentarmos para a meditação, quantas vezes não acontece trazermos uma expectativa? Sentamos, esperando que podemos acalmar a mente. Esperamos que desta vez os pensamentos vão deixar de tombar como cartas de um baralho que se desfaz sem haver maneira de os parar de cair. E quantas vezes opinamos sobre uma meditação, achando a “boa” ou “má”, conforme a medida em que respondeu às expectativas.

As mesmas expectativas, segundo as palavras de Pema Chodron, que em si são uma agressão subtil contra quem tu és.


Como toda a gente, também eu tenho experiência com a auto-agressão… acontece-me em particular quando começo a escrever. Sei o que gosto e não gosto, sei o que considero um bom texto e o que não. E quando começo a escrever, pode acontecer que “alguém” se põe atrás de mim, julgando e opinando sobre o que vou escrevendo – e volta e meio oiço: Estás a fazer isto mal, isto está errado. Se teria sido uma pessoa real a falar, teria respondido que não era da sua conta, que me deixasse fazer à minha maneira. Mas esta vozinha que surge do meu próprio ego, pode dizer o que quer.
Nestas alturas lembro-me das palavras de Pema Chodron, que devem ser tomadas literalmente, não só na meditação mas igualmente no dia-a-dia.

Quem tiver filhos, sabe que há um amor muito especial que temos com os nossos filhos. Um amor incondicional. Amamos sempre os nossos filhos, mesmo se eles fizeram algo estupido, ou quando têm medo de falhar, ou quando estão zangados, ou têm inveja ou ciúmes. Nem sequer os amamos menos por terem emoções complicadas. Curiosamente, trabalhamos com medidas diferentes quando é sobre nós. Amamos menos a nós mesmos quando temos medo de falhar ou quando temos ciúmes, porque achamos que não devíamos ser assim, e devíamos livrar-nos desta maneira de ser.
Infelizmente, a auto-critica é contraproducente: parece ter como resultado que rejeitamos aquela pessoa que somos, fazendo com que não conseguimos mudar.
Seria muito melhor sermos amigos de quem somos. Amar-nos incondicionalmente, o que significa poder ser tímidos, inseguros, parvos, ciumentos, seja o que for. Seria uma atitude mais construtiva, como podemos verificar nos nossos filhos: quando eles sentem que os aceitamos, começam olhar para os seus actos e sentimentos, começam a se entender, e compreender como mudar o seu olhar sobre a vida para terem uma vida mais feliz.

Amar incondicionalmente a quem somos seria uma solução para muito sofrimento. A gentileza para connosco podia significar inclusivo mais bondade entre as pessoas. Muitas vezes, as pessoas que criticam outras não estão contente consigo mesmo. Deste modo, se conseguíssemos praticar o amor e bondade interior, a necessidade de agredir o outro também pode desaparecer.

O que começa como uma auto-agressão subtil, pode tornar-se numa atitude agressiva perante o outro. Parece um lugar-comum, mas também parece ser inteiramente verdade. A paz começa com gentileza, bondade, amor e paciência para com quem tu és.

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