Cada um de nós tem uma chave para a sabedoria universal dentro de si. Abrindo o coração, entrando no silêncio, podemos aceder ao conhecimento que o vento murmura.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Transformar o pequeno e grande sofrimento

Uma motivação comum para começar com a meditação, é o desejo de encontrar a calma interior. Uma calma que afasta aqueles pensamentos negativos que invadem a nossa mente - normalmente nos momentos mais inesperados. Podemos interrogar-nos se esta expectativa é realista, e foi colocado uns tempos atrás uma reflexão sobre esse aspecto da meditação (ver aqui). Mas vou voltar ao assunto, porque a questão é persistente, tanto em perguntas de participantes na meditação, como na minha prática pessoal.

Um amigo colocou a imagem que está aqui ao lado no seu mural :D
Por vezes identifico em mim a mesma sensação. Também me acontece ser confrontada com pessoas que parecem querer exasperar o outro de propósito. E sei que não sou a única a quem acontece, porque chegam pessoas à meditação que me perguntam: O que se passa? Estamos a falhar o alvo? Existe a sensação que fazemos este trabalho interior todo, reflectimos, meditamos, observamos - e mesmo assim deixamos que alguém nos desequilibra??

Os mestres ensinam que não vale a pena procurar eliminar as emoções disruptivas através da práctica da meditação - essa procura é como perseguir uma ilusão. O que se procura desenvolver na meditação é a capacidade de levar a atenção directamente e imediatamente para aquilo que é sentido e repousar aí, com amor e bondade e com atenção plena.

Quando sentimos emoções disruptivas ligeiras, esta tarefa parece ser relativamente simples. Os pequenos incidentes do dia-a-dia até são oportunidades óptimas para treinar a auto-compaixão. Estou a falar de disrupções emocionais pequenas, que embora possam ter uma influência naquele dia, não impedem que a vida seja vivida normalmente. Coisas que surgem de uma situação específica: uma reunião em que o teu trabalho foi rejeitado; uma discussão com um amigo; um cliente com uma queixa; o carro que precisa de reparação quando já não há dinheiro para isso - ou simplesmente um "dia-não". Uma solução para estes sentimentos negativos é sentar em meditação, com a disposição do momento, e sim, sentir a emoção. Permitir que ela existe. Pema Chödron chama a isso: encostar-se  à emoção. Sentir - e mais nada. Nada de conclusões, ou procura de soluções. Nada de julgamentos. Nada de histórias. Sentir sem desencadear logo uma narrativa através de  pensamentos do tipo "sinto isso e a culpa é dele"; "não sou capaz de ter uma boa relação"; "falhei, devia ter feito aquilo de outra maneira"; "isso sempre me acontece"; "os meus pais não souberam educar-me" etc etc. Se este drama pessoal arranca, precisamos de intervir: libertar logo o pensamento e levar a atenção de volta à sensação no corpo, observando o que há para observar - calor, frio, tensão, desconforto, dor difusa aqui ou ali...). A técnica consiste em tornar a observação uma exploração de fundo, descrevendo com precisão as características das sensações.
A atenção plena sem julgamento, sem narrativa, sem drama, funciona da mesma maneira que o amor incondicional. Tal como uma mãe trata o dói-dói do filho depois de ter caído da bicicleta: ela observe, vê sem dramatizar, com toda a sua atenção, a ferida (se ela existe!), limpa, cuida e dá um beijinho no dói-dói. Atenção plena, sem drama. O resultado mais provável é que a dor desaparece e a criança volta a brincar.
Parece que a atenção plena e amor incondicional estimulam o corpo e o metabolismo das células, fazendo com que conseguimos digerir as experiências e voltar a sentir uma energia positiva.

É claro que há sensações negativas que não desaparecem tão facilmente só porque criámos espaço para sentir. Estas sensações dolorosas mais difusas podem existir por muitas razões - pode ser uma baixa auto-estima ou um conflicto interior recorrente que teima em criar obstáculos e que não sabemos como mudar. Estou a falar do género de mal-estar que parece acompanhar-nos durante grande períodos, como se fizesse parte de nós. Aqui a aproximação de "sentir a emoção e permitir que ela existe" não é suficiente. Começando na mesma com a observação e atenção, precisamos de avançar para mais: uma amizade com a emoção. O que realmente importe numa amizade é estarmos interessados em quem é o nosso amigo. Uma curiosidade genuíno, caloroso, sem segundas intenções. A nossa dor também gosta deste tipo de atenção. Ao dar atenção sem segundas intenções, até podemos descobrir que conseguimos gerar um sentimento bondoso e aberto. Em vez de vencidos pela dor, aliamos a ela e encontramos nela uma razão para gerar amor e bondade e auto-compaixão - e isso dá força!

Outras dores há que são ainda mais profundas - a dor após perder um ente querido, a dor de uma doença incurável na família. Uma dor derivada de uma situação sem solução, sem alternativa. Quando tudo de repente está completamente diferente e vai ficar assim.
Aqui a meditação pode oferecer uma porta para a aceitação. Olhando para a dor, sem julgamento, sem outra narrativa associada, podemos ver que o sofrimento não é eterno. Gradualmente a dor mudará de carácter, e entendimento surgirá.

O sofrimento tem um objectivo nobre: a evolução da consciência e a transformação do Ego. O Ego pode estar a dizer: "Eu não devia estar a sofrer" - o que faz surgir a sensação de ser vitima, e sublinha ainda mais a sensação de sofrimento. O objectivo da Alma é a transformação; tentar evitar ou eliminar o sofrimento vai abrandar o processo de transformação. A resistência contra o sofrimento e a luta interior contra a dor vai criar ainda mais Ego.
Aceitar o sofrimento vai acelerar o processo de transformação, porque começamos a sofrer com cuidado e atenção. E da sensação ardente da dor nascerá a Luz da Consciência.

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