Cada um de nós tem uma chave para a sabedoria universal dentro de si. Abrindo o coração, entrando no silêncio, podemos aceder ao conhecimento que o vento murmura.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Porque existem tantas maneiras de meditar?

Para quem quer meditar, há uma variedade grande de métodos e técnicas que podem ser utilizados. Neste texto vou me limitar às formas de meditação desenvolvidas a partir da filosofia budista.
Meditação silenciosa, "mindfulness", meditação em movimento, Zen, meditação activa... e aqui estamos ainda só a olhar para formas de meditação que encontram a sua base no budismo.
Existe um número grande de formas de meditação, que são muito diferentes entre elas. Esta variedade já existia na altura em que o Buda Sakyamuni, (Sidarta Gautama) viveu. O Buda histórico ensinou formas de meditação que eram diferentes consoante a vida e o carácter do discípulo. 

À pessoa religiosa, como um monge ou uma monja, eram dados exercícios que visavam o desenvolvimento da atenção plena. Atenção para a respiração, atenção para cada um dos gestos, atenção para os sentimentos, atenção para os pensamentos, estímulos sensoriais, padrões...(em: Sattipatthana-suta, "as formas de atenção"). É a chamada Vipasyana, de onde é derivado o "mindfulness".

Os exercícios dados aos discípulos do Buda histórico que eram leigos, eram totalmente diferentes. A estes era pedido evitar comportamentos não correctos (tais como matar, roubar, mentir, abuso sexual) e procurar um comportamento correcto, tal como reconhecer maus amigos e bons amigos, a assistência correcta de pais, esposos, amigos, religiosos, entre outros (em: Sigalovada-sutta, "conselhos a Sigala").

Uma história famosa é a de Krisha Gotami, que só numa idade avançada conseguiu engravidar e que perdeu o seu filho após o parto. Estava inconsolável, mas teve a felicidade de ser levada junto ao Buda Gautama. Ela perguntou se ele a podia ajudar e devolver a vida ao filho. Buda deu a então o seguinte exercício meditativo: traz-me um semente de mostarda, da casa de uma família onde ninguém faleceu ainda.
Parecia fácil, encontrar sementes de mostarda, mas quando Krisha começou a ir de porta em porta, ela percebeu que em todas as casas, alguém tinha falecido. Ela partilhou a sua dor e tristeza com a dor e tristeza de outros e progressivamente ela ganhou entendimento acerca da impermanência da vida humana.(em: Sogyal Rinpoche, The Tibetan book of living and dying).

Buda não reconheceu nenhuma forma de meditação como "a verdadeira forma de meditação". Ele considerava Verdade, aquilo que funciona para uma pessoa na sua situação específica. Deste modo desenvolveram-se nos séculos que se seguiram, diferentes formas de meditação nas diferentes culturas onde o budismo enraizou, adaptadas a todas estes diferentes situações e carácteres. De uma maneira generalizada, podemos dizer que pessoas que gostam de ter directrizes precisas sobre como meditar, tendem para formas de mindfulness ou formas de atenção desenvolvidas dentro do Budismo Theravada. Pessoas com um interesse mais esotérico podem fazer recitação de mantras, visualização de mandalas ou meditações com mudras - formas desenvolvidas no Budismo Vajrayana. Pessoas que procuram desenvolver a sua devoção podem virar-se para meditações devocionais do Mahayana, como o invocar do nome de Buda. Outros procuram um via de liberdade e podem virar-se para o Zen.

Mas que tipo de meditação escolher? Qual a meditação mais aconselhável?
É uma pergunta que encontra uma resposta não tanto através do raciocínio, mas antes através da intuição. Algo em nós sabe, sem duvidar, qual a forma ideal para nós. É uma questão de experimentar várias formas, e a um dado momento sentimos o "clique": fazemos o exercício, e está certo. É como chegar a casa. Sabes que isso é o que te faz sentir bem, e que é isso que vais fazer.

Pode acontecer que não encontras logo a forma de meditação certa, mas primeiro o/a guia (instrutor de meditação). Também a escolha de um guia não acontece tanto por razões lógicas, mas antes pela intuição. Simplesmente saberás que é essa a pessoa que te vai levar até à próxima fase. Neste caso, o exercício meditativo é acerca da fé e confiança. Tens confiança que sabes o que é bom para ti? Tens a confiança que nisso não estas a fazer batota, mas que honestamente procuras fazer o que é construtivo?

Encontramos a forma de meditação certa e adequada, porque é esta a forma que nos faz despertar para o mundo e para quem somos. Encontramos o guia certo porque é essa a pessoa capaz de nos fazer olhar de uma maneira diferente para quem somos.

E quem sabe, se calhar todas as formas de meditação acabam por ser exercícios de fé e confiança. Confiança que dentro de nós já existe e sempre existiu, a sabedoria e a compaixão que procuramos.

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