Cada um de nós tem uma chave para a sabedoria universal dentro de si. Abrindo o coração, entrando no silêncio, podemos aceder ao conhecimento que o vento murmura.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Os demónios interiores - de ameaça a aliado

Todos temos fraquezas com que lidar.
Podem ser inseguranças, falta de auto-estima, medos, dúvidas, traumas ou padrões de reação emocional, como ira e irritação, apego ou receio de rejeição.
São os nossos "demónios interiores" - forças que vêm do subconsciente, que fazem com que reagimos instintivamente a situações-chave.
Quando pensamos nestas fraquezas, até podemos perceber como funcionam. Podemos talvez  identificar em que situações ou perante que tipo de comportamento os demónios são activadas. Sabemos que somos influenciados por estes padrões no nosso comportamento, nas interacções e nos confrontos com outras pessoas.
Uma designação alternativa ao nome "demónios" é "bloqueios emocionais". São travões para a nossa felicidade e perturbam a nossa harmonia. Costumamos lidar com eles a partir de uma visão dualista - uma visão que resulta de experiências dolorosas, e que faz com que ficamos com a ideia que temos que lutar.

Há uma outra aproximação possível, que nasce de uma experiência diferente, nomeadamente aquela em que percebemos que tudo que existe é Um, e que fazemos parte de uma rede dinâmica em que flui a energia da vida.

Se olhamos para os padrões emocionais como fenómenos energéticos, que existem no Agora,  podemos aprender lidar com os mesmos de maneira diferente. Em vez de lutar com os demónios, podemos interagir com os mesmos, conhecer e nomear quem são, e transformar as forças que começaram como ameaças, em forças aliadas.

(fonte da imagem)
Recorrendo a técnicas e métodos tradicionais, tais como ensinado pelo budismo ou xamanismo, a energia é encarada de frente. Aplicando a nossa verdadeira natureza compassiva, apaziguamos o subconsciente e transformamos os "demónios" em forças.
Neste workshop fazemos uma abordagem pratica desta transformação energética. Olhamos para aspectos do chöd (budismo) e do shapeshifting (xamanismo) para um entendimento mais abrangente e ensaiamos um método que pode ser aplicado individualmente. 

Este workshop é uma introdução ao método. 
Será seguido por um segundo módulo em que olhamos sem julgamento para a natureza dos "demónios", que podem representar vários tipos de traumas ou padrões problemáticos, como podem também relacionar-se com aspectos do nosso ego. Ensaiamos meditações específicas para conhecer os que vivem em nós.
Aprofundaremos ainda o conceito de transformação energética através do "shapeshifting" e olhamos para aspectos do "oneness"

Workshop de introdução ao trabalho com os demónios interiores
segunda feira, 13 de Março das 19.30h às 22h
Local: Rua João de Deus, 124 - Évora
Contribuição  10€. nº máximo de participantes: 8 .
Para mais informação ou inscrição clique aqui.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Losar 2017: início do ano do Passaro de Fogo

No dia 27 de Fevereiro os Tibetanos celebram Losar - o início de um novo ano lunar e o início de um novo ciclo, agora sob o signo do Pássaro de Fogo.
O calendário tibetano é lunar-solar, o que significa que é calculado tendo em conta os fenómenos astronómicos. O ano começa e termina sempre numa lua nova. Este é um sistema semelhante ao dos chineses, hindus e babilónios antigos.

Os tibetanos usam energias e qualidades para distinguir o carácter dos diferentes anos. Eles combinam 12 sinais animais (rato, boi, tigre, coelho, dragão, cobra, cavalo, ovelha, macaco, pássaro, cão e porco) com os cinco elementos (madeira, fogo, terra, metal e água).

A astrologia tibetana diz sobre o Pássaro de Fogo que é um animal tenaz, determinado, preparado para um trabalho árduo – mas impulsivo e de cabeça quente. Tal como as pessoas mais fogosas, o Pássaro de Fogo adora comunicar, o que significa para o ano que começa, maior envolvimento na comunidade e socialização.
Será um ano em que podemos aproximar-nos de uma maneira construtiva, criando algo maior em conjunto do que seriamos capazes sozinhos. Um ano de trabalho, disciplina, vigilância e coragem em que podemos crescer para atingir o auge das nossas capacidades – mas haverá tempo para ligeireza: vamos ser lembrados da necessidade de abrir espaço para brincar e desfrutar.
Fogo é destrutivo, mas ao arder também alimenta a criação. Haverá neste ano o calor para equilibrar a agressão e dureza que pode surgir quando avançamos na mudança. Podemos construir uma rede de apoio, mãos que se juntam para trabalhar e construir e realizar as ambições. 

O Pássaro de Fogo vem quando é preciso! Nestes tempos, a Terra e todos os seus habitantes estão a ser confrontados com uma vaga de ódio, rejeição, medo. Egocentrismo, nacionalismo, fobias a tudo que é diferente em cor, religião, opções de vida - são tendências omnipresentes. Os acontecimentos mundiais provocam reacções fervorosas, fazendo que as pessoas se mostram disponíveis em lutar para as suas convicções.
Ao mesmo tempo, vemos que cada vez mais pessoas acordam para a necessidade de se juntar para o bem de todos. 
É conhecido a força que pode emanar de um grupo que estabelece uma intenção em conjunto. Temos esta liberdade! Podemos, em conjunto com a energia do Pássaro de Fogo, estabelecer uma intenção compassiva e consciente.
Podemos empenhar-nos em ultrapassar a distância: ver o outro como um irmão, alguém que tal como nós procura cumprir o seu destino, procura preencher o vazio interior, procura a felicidade.
Podemos transformar as boas intenções em acções nas nossas comunidades locais: estimular o entre-ajuda, plantar árvores e flores, organizar o encontro entre gerações, criar um ambiente seguro em que as crianças podem aprender com o cérebro, o coração e a criatividae e crescer para ser adultos felizes.
Podemos juntar-nos e escolher uma via diferente. Desejo a todos um bom ano do Passaro-de-Fogo.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Quatro aspectos fundamentais da meditação de atenção plena



A meditação de plena atenção (mindfulness) é o ponto de partida para uma viagem espiritual, comum a muitas tradições religiosas, filosóficas e místicas. Aqui entendemos a espiritualidade não como uma maneira de atingir uma felicidade específica ou um estatuto especial. Falamos de espiritualidade como uma atitude em que nos dispomos a relacionar-nos com a base da nossa existência, que é o estado da nossa mente. 

Podemos considerar a mente como a característica que distingue os seres sencientes das rochas, plantas ou massas de água. A mente é a instância que distingue, que tem uma noção de dualidade em que algo exterior é identificado, para em seguida ser desejado ou rejeitado. Fundamentalmente, a mente é aquilo que consegue perceber algo como sendo diferente de quem está a perceber.

O que acontece quando estamos conscientes – no sentido mais alargado – é que tomamos consciência de algo diferente do “eu”. Assim, quando falamos da mente, estamos a falar de algo muito específico: falamos de uma percepção do exterior, que faz com que a mente assume a priori que existe um “eu”.

“Mente” também inclui emoções. Ela não pode existir sem emoções, que existem em muitas graduações: paixão, agressão, ignorância, orgulho, todo o tipo de emoções que confirmem à mente, através das sensações emocionais, a sua própria existência.

O que procuramos quando iniciamos o caminho da meditação, é uma libertação dos esquemas que a mente utiliza para confirmar a sua existência. Utilizamos o mindfulness para nos relacionar directamente com a mente. Não estamos interessados em perceber o conteúdo da percepção, mas sim em perceber o processo da percepção – para não ficar agarrados pelas ilusões, projecções ou emoções produzidas pela mente.

Olhando para os aspectos fundamentais no mindfulness, podem ser distinguidos quatro:

- mindfulness do corpo

- mindfulness da vida

- mindfulness do esforço

- mindfulness da mente

Mindfulness do corpo tem a ver com a tentativa de mantermos humanos. A consciência de ser humano, de ter uma forma física, de estar enraizado nesta terra. Somos seres humanos normais, iguais a qualquer outro, e no mindfulness do corpo podemos ver essa realidade.

Tem a ver com a aceitação das sensações do corpo, dos sentidos que nos dão informação sobre o que acontece. Dos 8 níveis de consciência que a mente possa ter, os primeiros 5 tem a ver com os sentidos corporais: a consciência da visão, consciência da audição, a consciência do olfato, a consciência do paladar, e a consciência do corpo. Corpo e toque, língua e gosto, nariz e cheiro, ouvido e som, olhos e forma. Essas consciências são um tipo de fluxo; formam-se e desaparecem. [i]

Nas primeiras sessões (do curso de iniciação à meditação, do qual faz parte este texto) experimentamos uma abordagem a essas consciências, através da postura e da audição. Percebemos como quando essas consciências são vividas em plena atenção, pode haver momentos de simplesmente ser. 

De acordo com os Tchich Nath Hahn, quando as consciências dos sentidos operam sozinhas sem a consciência da mente, elas podem ter a oportunidade de tocar a dimensão absoluta da realidade, ou última. Não há pensamento. O primeiro momento de tocar e sentir pode ajudar essas cinco consciências a tocar a dimensão absoluta, tocar a realidade. Há um contato direto, sem discriminação ou especulação. Mas quando as cinco colaboram com a consciência da mente, então o pensamento, a discriminação, a especulação instalam-se e elas perdem o contato com a dimensão absoluta, com a realidade.

A segunda forma de mindfulness é o mindfulness da Vida. Falamos aqui de termos noção do instinto vital, da força vital que nos mantém vivos. É uma força que nos faz estar alerta – um instinto de sobrevivência. Mas é igualmente uma força que nos leva a agarrar-nos para sobreviver. Em meditação, é um agarrar ao estado meditativo, um querer estar em paz, que tem efeito paradoxal: no momento em que nos agarramos, a mente deixa de estar livre e em descanso. E o estado meditativo dissolve e desaparece….

É um mal-entendimento comum, pensar que o estado meditativo é algo que pode ser captado, alimentado e acarinhado. Mas quando procuramos, através da meditação, domesticar a mente - ou seja, tentar exercer poder sobre ela, mantendo-a em estado meditativo – a meditação torna-se artificial e forçado, perdemos espontaneidade, frescura. Será como seguir uma receita vez após vez, sempre o mesmo prato. Vai tornar a meditação rígida.

Aqui a aproximação é simples, podemos ter plena atenção da força vital sem tentar agarrar a sensação do estado meditativo. É um treinar parar ter confiança: da mesma maneira que não precisamos de manter o equilíbrio do corpo (ele mantém se sozinho na postura) aqui também podemos ter confiança que não precisamos de segurar a mente. Se relaxamos, ela vai habituar-se a voltar espontaneamente ao estado meditativo: calmo e alerto. Meditação pode tornar-se uma maneira de estar, em vez de um exercício rígido. O instinto de vida acaba por levar a atenção àquilo que acontece, continuamente.

A plena atenção vivida assim resulta em meditação contínua: a sensação que estás aqui, vivendo, permitindo que é assim mesmo. Isto é mindfulness. O coração bate, há respiração; um leque de movimentos físicos, mentais e emocionais acontece ao mesmo tempo. A tua respiração torna-se a expressão do mindfulness… uma experiência directa, pessoal e única.

O Mindfulness do esforço é algo paradoxal em meditação: procuramos estar relaxados, abertos, sem esforço ou artificialidade. Como podemos ter mindfulness do esforço?

Aqui falamos de uma tomada de consciência que estamos a fazer o esforço certo. Não podemos ter a expectativa de um êxito contínuo quando estamos a esforçar-nos em afastar a dor ou o sofrimento ou o ego. Assim vamos ser escravos da nossa intenção. O ideal é mesmo ter uma noção clara da intensidade com que estamos a meditar: não demasiado sério e solene, nem com sentido do dever exagerado. Fluir naturalmente entre aplicar-nos e não aplicar-nos em demasia é o estilo que procuramos; deixar que o esforço se equilibra continuamente, voltando naturalmente para a respiração.

Chegamos ao Mindfulness da mente, o que significa estarmos junto à nossa mente. Quando nos sentamos e meditamos, estamos presente. Estamos presentes no corpo, presentes na sensação da vida ou de sobrevivência, presentes na maneira em que nos aplicamos no esforço de meditar. Ao mesmo tempo, estás com a mente. Estás sendo.

O mindfulness da mente engloba uma sensação de presença, e uma sensação de precisão e rigor em estando presente. É estar inteiramente presente. Não há de maneira de não ir ter contigo: estás aí. Não estando presente, podias falhar – mas quando percebemos que não estamos presente é porque estamos ;)

O processo é simples, embora não há palavras suficientes para explicar a simplicidade. É algo para ser experimentado, de momento a momento, estando aqui e agora. Por muito que podemos ter a ideia que temos muito significado ou impacto, aquilo que realmente interesse, acontece aqui e agora dentro da mente. Podemos pensar que temos um passado e um futuro, e que tudo é muito importante, mas na realidade funcionamos de momento a momento, no eterno agora.

A vida acontece uma coisa após a outra, num movimento directo e simples. Mindfulness da mente tem por isso uma técnica extremamente simples: registando o que acontece na mente. “Penso que oiço um som” – “penso que cheiro um odor” – “penso que sinto calor”… registando com precisão, directamente, cada movimento da mente.

Estes quatro aspectos da atenção plena podem ser encontradas na respiração.

Quando nos sentamos em meditação, percorremos os quatro aspectos fundamentais. Verificamos a postura e tornamos a atenção plena para o corpo. Convidamos o corpo inteiro a relaxar na postura, sem expectativas, sem exigências, sem objectivos, e contactamos com a atenção plena da vida. Estabelecemos a intenção e lembramo-nos da motivação: contactamos com a atenção plena do esforço. E começamos a levar a atenção plena para a respiração, e no vai e vem da respiração começamos a encontrar a atenção plena da mente. Respiramos. Recebemos e libertamos, sem agarrar, sem rejeitar. Estando presente, em cada momento, a mente começa a mostrar como funciona. 


Ouvimos Sogyal Rinpoche: "Tal como o oceano tem ondas e o sol tem raios, a manifestação própria da mente são seus pensamentos e emoções. O oceano tem ondas, mas não é particularmente perturbado por elas. As ondas são da mesma natureza do oceano. As ondas aparecem, mas para onde vão? De volta ao oceano. E de onde vêm? Do oceano. Do mesmo modo, pensamentos e emoções são a radiância e a expressão da verdadeira natureza da mente. Eles surgem na mente, mas onde se dissolvem? Na própria mente. O que quer que apareça, não o encaramos como um problema particular; se não reagimos de maneira impulsiva, se sabemos ser apenas consciente, voltaremos naturalmente para a nossa verdadeira natureza.

Assim, não importa que pensamentos e emoções apareçam. Permitimos que eles venham e assentem, como as ondas do oceano. Não importa o que se perceba pensando, deixamos o pensamento surgir e se assentar, sem interferência nem dar importância específica. Não o agarramos, não o alimentamos, não lhe prestamos demasiada atenção; não nos agarre a ele e não tentamos dar-lhe solidez. Não seguimos os pensamentos nem os convidamos. "

Ao respirar, podemos ser como o oceano olhando para as nossas próprias ondas. Podemos ser o céu, que do alto observa as nuvens que passam por ele. Pairamos no espaço azul para observar e deixar passar. 
____________________________
(texto baseado nos ensinamentos de Thich Nhat Hahn; Chogyam Rinpoche, em “The Heart of the Buddha”; e Sogyal Rinpoche, em “Livro Tibetano da Vida e da Morte”)

[i] Para completar: Considera-se a sexta consciência a consciência da mente; a sétima é o solo em que a mente se apoia para se manifestar; a oitava consciência é a consciência armazenadora.
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