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O Buda deu este ensinamento ao seu filho Rahula: "Rahula, pratica amor e bondade, para superar a raiva. A bondade tem a capacidade de trazer felicidade para os outros, sem exigir nada em troca.
Pratica a compaixão, para superar a crueldade. A compaixão tem a capacidade de remover o sofrimento dos outros, sem esperar nada em troca.
Pratica a alegria altruísta, para vencer o ódio. Alegria altruísta surge quando se é alegra pela felicidade dos outros e se deseja aos bem-estar e sucesso.
Prática o não-apego, para superar o preconceito. Desapego é a forma de olhar para todas as coisas abertamente e de forma igual. Isto é porque isto é. O eu e os outros não estão separados. Não rejeita uma coisa para perseguir o outro.
Chamo estes os quatro imensuráveis. Pratica-as e se tornará uma fonte refrescante de vitalidade e felicidade para os outros."
(Mahā Rāhulovada Suttanta)
Transcrevo as palavras de Thich Nhat Hanh acerca dos aspectos do verdadeiro amor:
"Amor, compaixão, alegria e
equanimidade são a própria natureza Buda. São os quatro aspectos do
verdadeiro amor dentro de nós, dentro das outras pessoas, e na verdade
dentro de todas as coisas.
O primeiro aspecto do verdadeiro
amor é Maitri, a intenção e capacidade de proporcionar alegria e
felicidade. Para desenvolver essa capacidade, temos que praticar o
enxergar e o ouvir em profundidade, para saber o que devemos fazer e não
fazer para poder proporcionar felicidade aos outros.
Sem compreensão, o amor não é
amor verdadeiro. É preciso observar em profundidade para poder enxergar e
compreender as necessidades e aspirações, bem como o sofrimento
daqueles que amamos. Nós todos precisamos de amor. Amor nos proporciona
alegria e bem-estar. É natural como o ar que respiramos. Somos amados
pelo ar, por isso precisamos de ar para ser felizes e nos sentir bem.
Também somos amados pelas árvores, por isso necessitamos das árvores
para nos manter saudáveis. Entretanto, para ser amados temos que amar, o
que significa que precisamos compreender. Para que nosso amor possa se
desenvolver, temos que escolher a acção ou a não-acção adequadas, de forma
a proteger o ar, as árvores e aqueles que amamos.
"Amor" é uma linda palavra; seu
verdadeiro sentido deveria ser restaurado. A palavra maitri tem o mesmo
radical que a palavra mitra, que significa Amigo. No budismo, o sentido
fundamental do amor é a Amizade. Todos nós temos dentro de nós as
sementes do amor. Podemos desenvolver essa fonte maravilhosa de energia,
nutrindo o amor incondicional, aquele que não espera nada em troca.
O segundo aspecto do verdadeiro
amor é karuna, a intenção e a capacidade de soltar e transformar o
sofrimento, aliviando a tristeza. Karuna é geralmente traduzida como
"compaixão", mas isso não é totalmente correto. "Compaixão" é uma
palavra composta de com ("junto com") e paixão ("sofrimento"). Mas nós
não precisamos sofrer para remover o sofrimento de uma outra pessoa. Os
médicos, por exemplo, são capazes de aliviar o sofrimento de seus
pacientes sem passarem eles mesmos pela doença. Se sofrermos demasiado
seremos esmagados, tornando-nos incapazes de ajudar seja quem for. Mesmo
assim, até encontrar uma palavra melhor, usaremos "compaixão" como
tradução para karuna.
Precisamos ter consciência do
sofrimento que existe no mundo, mas sem perder nossa clareza, nossa
calma e nossa força, para que possamos ajudar a transformar as
situações. Um oceano de lágrimas não nos afogará desde que haja karuna. É
por isso que o sorriso do Buda é possível.
O terceiro elemento que é parte
do amor é mudita, a alegria. O verdadeiro amor sempre proporciona
alegria, para nós e para as pessoas que amamos. Se nosso amor não
trouxer alegria, não será um verdadeiro amor.
Drishta dharma sukha viharin
significa "estar feliz no momento presente". Não nos lançamos ao futuro,
porque sabemos que tudo o que importa está aqui, agora.
O quarto elemento do verdadeiro
amor é upeksha, que significa equanimidade, desapego, não-discriminação,
serenidade mental, ou a capacidade para deixar as coisas seguirem. Upa
quer dizer "acima" e iksh significa "olhar". Você sobe uma montanha para
poder olhar de cima, para a situação como um todo, sem se limitar a um
lado ou a outro. Se o amor contiver apego, discriminação, preconceito ou
desejo, não será um amor verdadeiro. As pessoas que não conhecem o
budismo pensam que upeksha significa indiferença, mas a verdadeira
equanimidade não é fria nem indiferente. Upeksha não significa que você
ama, mas que ama de tal maneira que todos recebem amor, sem
discriminação.
Upeksha traz a marca chamada
samatajnana, "a sabedoria da igualdade", a capacidade de ver todos como
iguais, de não discriminar entre o "eu" e os outros. Abandonamos toda a
discriminação e o preconceito, removendo as barreiras entre nós e os
outros. Enquanto enxergarmos a nós mesmos como aquele que ama, e o outro
como aquele que é amado, enquanto dermos mais valor a nós mesmos do que
aos outros, e nos considerarmos diferentes dos outros, não teremos
atingido a verdadeira equanimidade. Temos que aprender a nos colocar no
lugar da outra pessoa, tornando-nos unos com essa pessoa, se quisermos
realmente compreender e amar o outro. Quando isso acontece, deixam de
existir o "eu" e o "outro".
Sem upeksha, o amor se torna
possessivo. Uma brisa de verão talvez seja refrescante, mas se tentarmos
enlatar a brisa para tê-la ao nosso dispor, a brisa morrerá. Com as
pessoas que amamos acontece a mesma coisa. A pessoa amada é como uma
nuvem, uma brisa ou uma flor. Se você aprisioná-la em uma lata ela
morrerá. Entretanto, muitas pessoas fazem exatamente isto. Tiram a
liberdade de seus seres amados até o ponto onde a outra pessoa não
consegue mais ser ela mesma. Vivem para satisfazer seus próprios
desejos, usando o ser amado para ajudá-los a fazer isso. Isso não é
amar, é destruir. Você diz que ama a pessoa, mas se não tentar entender
seus anseios, necessidades e dificuldades, a pessoa viverá em uma prisão
chamada de amor. O verdadeiro amor preserva a liberdade, e é isso que é
upeksha.
Para que o amor seja verdadeiro,
precisa conter compaixão, alegria e equanimidade. Para que a compaixão
seja verdadeira, deve conter alegria, amor e equanimidade. Da mesma
forma, a verdadeira equanimidade precisa conter amor, compaixão e
alegria. Essa é a natureza interdependente dos Quatro Pensamentos
Imensuráveis.







