Uma parte importante deste blogue é dedicado à filosofia budista, não só na sua vertente espiritual, mas igualmente na sua vertente histórica.
Hoje o Cavalo de Vento transcreve um texto sobre o desenvolvimento do Budismo. O texto é da autoria de
Manuel FS Patrocinio, investigador da Universidade de Évora e CHAM Centro de Humanidades - NOVA
Antes de nós, no passado, quem se destacou na procura espiritual, que caminhos tomou, qual o seu legado e exemplo, em particular no que veio concretizar no Budismo histórico?
A experiência espiritual e a fé são intrínsecas à existência humana, indicando ligações únicas e propiciando olhares que transcendem o momento presente, resultando em aspectos que vieram revelar-se como sendo transversais à cultura, aos territórios e ao decurso do tempo. Revêm-se estes aspectos tanto no presente como no passado, sendo possível reconhecermo-nos em todos aqueles que nos antecederam que também protagonizaram um tal processo. O objectivo da espiritualidade será, sempre, alcançar o Céu, seja esta dimensão entendida (conforme se documenta pelas ideias que ficaram das sociedades que nos antecederam) como uma morada dos deuses, ou o Paraíso a que tanto referem as culturas e religiões; ou, tão simplesmente, como um sítio magnífico e perfeito, receba esse sítio o nome de Atlântida como o de Shangdu, na qualidade de lugar indispensável a qualquer geografia que seja construída pela esperança e pelo coração.
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Caminhante no Deserto de Taklamakan
(Região de Xinjiang, China)
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A vivência da espiritualidade, manifestando-se em tudo o que se entende como sendo, por definição, imaterial, exprime-se num primeiro contacto que, de resto, se realiza com a terra. O ponto de partida do caminho do Céu começa, antes do mais, no próprio corpo e as primeiras estradas que se devem começar a percorrer são os próprios trilhos terrenos a que o corpo se oferece no seu movimento.
Já no passado se identificavam gestos e acções referentes à intenção de cumprir um caminho, entendendo-se que o caminho do Céu deveria iniciar-se nos próprios caminhos do mundo, destacando-se como viagens históricas as que se sucederam em períodos de afirmação das religiões. Considerando-se assim antigas épocas em que as correntes espirituais se vieram revelar na sua consolidação, é interessante observar o modo como as mesmas se manifestaram em contemporaneidade de séculos e até em contiguidade territorial, tendo em conta as regiões em que os principais acontecimentos se sucederam.
Os tempos de transformação das religiões
Tomando o exemplo da expansão do Cristianismo e da expansão do Budismo em relação aos seus respectivos focos de origem, observa-se que decorrem paralelamente num mesmo período compreendido entre os sécs. IV-VIII, em que se assinalam também a diáspora judaica e a ascensão do Islão ou ainda a transformação para uma via de novas formas do Hinduísmo (Índia), do Taoísmo (China) e Xintoísmo (Japão). Nas religiões, muitas vezes ditas primitivas, caso do animismo e do xamanismo, presentes em populações diversas, vieram a identificar-se igualmente transformações, sendo que a sua força acabava por se esbater no confronto com as religiões maiores, pois, carecendo de uma organização hierárquica definida, ao animismo e o xamanismo correspondiam práticas e crenças que espelhavam sobretudo a dimensão tribal dos grupos em que se originaram. Conservaram estes grupos, de qualquer modo, uma sabedoria que, mesmo não estando registada em qualquer literatura, sobreviveria em tradições duradouras.
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| Montanhas da Província de Khyber Pakhtunkhwa (Norte do Paquistão), correspondentes
ao antigo território do Reino de Gandhara |
Durante os mencionados séculos, desapareceriam aliás outros cultos significativos que havia conhecido preponderância, caso da religião dos antigos Romanos ou caso do druidismo e dos paganismos europeus. Foi um período em que se abandonaram- também as estruturas milenares de outros tempos, caso dos recintos megalíticos e dos templos clássicos, e, a breve termo, também sucederia o mesmo com os veneráveis santuários egípcios. Mas o que acabou por resultar das transformações destes séculos fulcrais adquire de qualquer modo, a nível religioso, contornos de uma construção civilizacional comparável ao Renascimento, trazendo ideias e uma produção literária abundante além de uma renovação monumental e arquitectónica que trouxe novos edifícios religiosos.
Que caminhos da fé em novos contextos civilizacionais?
Novos auges se revelavam e novas edificações religiosas erguer-se-iam do Mediterrâneo à China, transformando e recriando capitais como Roma e Jerusalém (consagrando aqui o Cristianismo inicial), ou como Bagdhad e as cidades do Reino de Gandhara, estabelecendo-se também importantes centros de peregrinação sob a forma de imponentes santuários rupestres em lugares até então inóspitos: nos montes de Udaygiri (Índia), assinalando a renovação do Hinduísmo, ou em Dunhuang, um oásis entre desertos, e que se tornaria num dos principais focos do Budismo na sua expansão para o Extremo-Oriente ao mesmo tempo que significou o estabelecimento de um posto fronteiriço avançado que alargava as fronteiras do China imperial.
Testemunhava-se assim nesta parte do mundo, que, desde o Mediterrâneo e atravessando a grande Pérsia, ia então até à Ásia central, a formação de rotas que ligavam reinos e Impérios, resultando nos itinerários da chamada Rota da Seda. Sendo principalmente itinerários destinados ao comércio, tornaram-se igualmente em caminhos religiosos, que, à época, começaram a ser também percorridos por primeiros monges peregrinos, interessados nas fontes de sabedoria espiritual.
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Buddha na Terra Pura do Ocidente, Grutas de Mogao em Dunhuang
(Província de Gansu, China)
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Na verdade, em assinalável diferença quanto às religiões anteriores a este período de
séculos, que haviam estabelecido preceitos rígidos de distanciamento do indivíduo
em relação à divindade, emergia agora, ao invés, a vontade de aproximação intimista
e a possibilidade de modos de um contacto directo do indivíduo com o
transcendente. Sendo que um aspecto que as diversas correntes religiosas que
surgiam nesta fase evidenciavam ter afinal em comum, a espiritualidade adquiria uma
expressão que se revestia de uma dimensão de experiência individual. Decorre em
consequência também a renovação de práticas que vinham referir-se ao que era
possível concretizar individualmente, caso das peregrinações e viagens. O Budismo,
tendo surgido no Norte da Índia, expandira-se em via privilegiada para territórios
ocidentais, correspondentes a velhos reinos com nomes que o tempo, porém, fez
esquecer: Gandhara, Udhyana, Kush, Bactria, Sogdiana… (onde estão os actuais
estados do Paquistão, Afeganistão, Tajiquistão, Uzbequistão ou Irão).
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Representação de Avalokiteshvara-Padmapami nas Grutas de Ajanta
(Maharashtra, Índia), descritas em antigos roteiros
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Que viajantes, empenhados num rumo de busca espiritual, se vieram a destacar para estes períodos?
As compridas estradas continentais da Rota da Seda atravessavam então os antigos países, reinos e Impérios, e ao longo dos seus pontos mais estratégicos floresciam diversos santuários importantes e afamadas cidades, como Samarkanda ou Khotan, onde reis locais fomentavam a fundação de casas budistas e aí acorriam agora os monges vindos de longe, principalmente da China. Os nomes destes viajantes ficaram neste caso registados e o seu propósito final era levar de volta conhecimento do que estava já estabelecido para as comunidades budistas na Índia e Ásia central, como parte de uma missão que passava obviamente pela experiência das viagens que conduzissem aos lugares consagrados. Foi assim que o primeiro de tais célebres monges conhecidos, chamado Faxian, partiu em 399 da capital imperial de Chang’an para um périplo que o levaria, por rotas interiores, até Gandhara e depois à Índia, tendo deixado um relato pormenorizado: o Foguoji, ou Descrição dos Reinos Budistas.
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Representação cultual do Monge Faxian no Templo Shingon de Daishô
(Miyajima, Perfeitura de Hiroshima, Japão)
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Faxian, também conhecido como Fa Hien, regressaria munido da colecção de textos da Tripitaka, o cânone fundamental para os ensinamentos, realçando-se a importância da parte desse conjunto que era dedicada às regras monásticas: os Vinaya. A Faxian seguiu-se Sung Yun, que, enviado pela piedosa Imperatriz Hu, saiu com companheiros em 519 de outra das capitais chinesas, Luoyang, também rumo a Gandhara e Índia, voltando em 522 com cerca de 170 sutras. Há-de destacar-se outro monge, Xuanzang (ca. 600-664), nascido como Chen Yi, que repetiu idênticos itinerários e regressou também com um lote de textos e, com a tutela imperial, foi responsável pela consolidação do Budismo na China e desenvolveu estudos sobre a consciência e o karma, além de tradutor prolífero das obras que trouxera na sua viagem. Por fim, Yijing (635-713), que, partindo igualmente de Chang’an e saindo da China pelo porto de Yangzhou, se distinguiu por ter preferido a viagem por via marítima, tendo sido autor de uma Descrição do Budismo na Índia, visitando as cidades de Kapilavastu (entretanto desaparecida) e Sravasti, lugares ligados à vida de Siddharta Gautama.
O que nos foi legado como herança de espiritualidade?
Atraídos pelo que se manifestava atrás de um mundo tão fervilhante e composto de povos tão diferentes como era o período dos sécs. IV-VIII, um mundo que testemunharam e que descreveram com detalhes, Faxian, Sung Yun, Xuanzang ou Yijing foram tão só as figuras melhor conhecidas de uma lista que contava com mais integrantes. Atravessando terras, misturando-se no bulício das rotas e rivalidades políticas, estas figuras demonstraram que o caminho poderia ser uma forma de ascese, na procura da revelação e do conhecimento, tornando, pois, o sentido de caminho na sua aprendizagem privilegiada para a iluminação espiritual, mesmo num contexto de multiplicidades religiosas, em que facilmente se trocavam os cultos. De qualquer modo, à época, consagrava-se precisamente, a corrente do Budismo Mahayana, a apologia do que se designou como Grande Via e onde convergia este sentido simbólico do que se considerava o caminho. Após os seus anos de permanência nesses outros lugares, acabariam estes monges por levar consigo as cópias de sutras, orações e comentários recolhidos durante a sua estadia, além de terem redigido as memórias onde se fixou a sua voz. As suas diligências não só asseguraram a continuidade da expansão do Budismo para regiões cada vez mais orientais, como, além da própria transmissão dos textos da Tripitaka, conservou a compilação de textos ainda actualmente referenciados como base de ensinamentos, confirmando que a procura dos caminhos do Céu também se ligava aos caminhos do próprio mundo e às movimentações humanas.
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Representação do Monge Xuanzang, num rolo pintado do séc. XI
(Período Song, China)
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Referências Chavannes, E.: Voyage de Song Yun dans l’Udhyana et le Gandhara. Bulletin de l’Ecole française d’Extrême-Orient, 3 (1903). Dalrymple, W.: From the Holy Mountain – A Journey in the Shadow of Byzantium (Londres, 1997). Frankopan, P.: The Silk Roads – A New History of the World (Londres, 2015). Sen, T.: The Travel Records of Chinese Pilgrims Faxian, Xuanzang, and Yijing. Education About Asia, Vol. 11 -3 (2006). Walter, M.N.; Fridman, E.J.N., eds.: Shamanism – An Encyclopedia of World Beliefs, Practices and Culture (Santa Barbara – California, 2004). Weerawardane, P.: Journey to the West – Dusty roads, stormy seas and transcendence. BiblioAsia, Vol. 5 – 2 (2009), 14-18. Fonte das imagens: WikiCommons e WikiSpaces.