Cada um de nós tem uma chave para a sabedoria universal dentro de si. Abrindo o coração, entrando no silêncio, podemos aceder ao conhecimento que o vento murmura.

sábado, 22 de setembro de 2018

Equinócio e Lua Cheia : celebrar o equilibrio


Neste fim de semana, no dia 23 de Setembro, por volta das 03 de manhã, o Sol passa a linha imaginária do equador para começar a iluminar mais a metade sul do planeta. É o Equinócio, início do Outono na parte norte da Terra.

A partir do Equinócio do Outono, o Sol estará mais perto do pólo Sul da Terra. No hemisfério Norte, as noites aumentam e os dias ficam mais curtos. Tudo na vida se vira mais para dentro. Avançamos do Verão - altura de expansão, crescimento, acção, da energia masculina "Yang" - para o território de dentro. Viramos para "Yin" - a energia feminina, intuitiva, receptiva, criativa. A viagem para dentro vai culminar no Solstício do Inverno e chegar a fim no Equinócio da Primavera, quando a energia vira novamente, desta vez de dentro para fora.

O Equinócio de Outono é tradicionalmente uma festa de gratidão para o que a Terra ofereceu. As colheitas estão nos armazéns, as reservas para o Inverno estão a ser preparadas. É a época marcada pelo "Thanksgiving".



A altura convida para entrar no fluxo da gratidão! Masaru Emoto mostrou através dos seus ensaios com a água, que o sentimento de amor e gratidão é a energia com mais força de harmonização. (link
O Equinócio é por excelência uma altura de procurar equilibrio, harmonia. Um momento para ser grato por todas as experiências do ano, tudo que recebemos...

O Equinócio também marca a entrada do Sol no signo de Balança (Libra). Na simbologia, que tem a sua origem na mitologia romana, Libra é a balança de pratos, que é segurada na mão de Astraea, a deusa da justiça. Ela é igualmente a deusa do equilíbrio e da Verdade. No antigo Egipto, a deusa da balança é Ma'at. Ela é representada não só pela balança, mas também pelo signo = e é a consorte de Thoth, deus do equilíbrio, árbitro no conflicto entre o bem e o mal, o deus que pesa a alma na passagem pela morte.

Thoth, Ma'at, Osiris e Anubis na pesage do coração

Muito significativamente, a entrada no signo de Balança coincida com o Equinócio, quando dia e noite estão em equilíbrio. É a altura indicada para reflectir sobre o passado e o futuro. Sem mudanças no nosso interior, o nosso passado será o nosso futuro.
Estamos no limiar entre o que foi e o que ainda não é, olhando para trás para tudo que já conseguimos, e olhando para frente, para o que gostaríamos de conseguir. Durante a transição do Verão para o Outono, um forte fluxo energético de mudança assiste para poder pôr em movimento o nosso próprio futuro.A roda da vida continua a girar...

Para os Nativos Americanos, o Equinócio marca na roda da Medicina, a viragem para a direcção Oeste. Em breve o Inverno virá, uma época de escuridão, morte e preparação para a renovação. Na roda da Medicina, somos lembrados que pertencemos a esse grande conjunto, a Terra Mãe. Fazendo parte integrante deste conjunto, todas as nossas decisões tem um impacto nos outros, e nas gerações futuras. Estando no Oeste, é nos pedido que colhemos, não só para nós, mas para muitos e para os que hão-de nascer. Podemos olhar para a colheita das nossas experiências e aprendizagens. Podemos agora optar para juntar a nossa sabedoria, talentos e recursos e por tudo ao serviço da Terra, para deixar um sítio melhor do que encontrámos.
Virando para Oeste, podemos pausar um momento para agradecer os que vieram antes de nós, para agradecer a Terra - e tirar algum tempo para retribuir com as nossas intenções e acções o que já foi feito para nós.

Este ano, os dias do Equinócio, em que celebramos o equilíbrio do dia e da noite, trazem também uma Lua Cheia, que nos lembra de outro equilíbrio: entre o Sol e a Lua e entre os signos em que estes astros se encontram: Balança e Carneiro. 

"A energia de Balança pede um equilíbrio, pede uma atenção aos dois lados, às várias perspectivas... A conjunção entre o Sol e Mercúrio, nesta altura, é maravilhosa para resolver discórdias, para expor ideias e, o mais importante, para aprender, para escutar.
Saturno é um interveniente importante nesta Lua Cheia e, por isso, a harmonia não é propriamente um dado adquirido - tem de haver trabalho, conquista, capacidade de compromisso e cedências... As barreiras (dentro e fora de nós) estão a fazer-se sentir. E agora, é importante olhar para os nossos limites - tempo, dinheiro, estado de saúde e aquele que a meu ver é o mais complicado: a forma de pensar. A forma de pensar é a nossa pior barreira, mas tem o poder de se transformar na nossa maior aliada. A forma como pensamos (que se vai reflectir no que dizemos e no que fazemos) vai «controlar» grande parte do que «nos acontece» e de como a nossa vida se desenrola. O maior problema aqui é a identificação que fazemos de nós com aquilo que pensamos... Como se ao nos atrevermos a pensar diferente estivéssemos a ditar a morte de quem pensávamos ser...

A energia de Carneiro é a energia do que é novo. Fala-nos de individualidade, de energia, de impulso criativo, de acção corajosa...

Estamos a ser convidados a avaliar em que sentido desperdiçamos a energia das nossas vidas em actividades e comportamentos que não nos são favoráveis, a curto e a logo prazo. Estamos também a perceber o medo que temos de seguir em frente, de explorar o que não conhecemos..." (Em: Sabedoria das Estrelas)

Teremos muito que pensar, reflectir e celebrar nestes dias. Fica o convite para duas meditações dedicadas ao Equilibrio:
Domingo, 23 de Setembro, às 07h00 de manhã 
Saudação ao Sol do Equinócio
Cromeleque dos Almendres, Guadalupe, Évora

2a feira, 24 de Setembro, às 19h15
Meditação e Cerimonia da Lua Cheia
Cromeleque dos Almendres, Guadalupe, Évora

Para a cerimónia no Cromeleque, é costume trazer uma oferenda em agradecimento ao sítio: um pau de incenso, um pouco de água, uma pedrinha, uma flor, ou o que achar adequada para exprimir a gratidão.
A participação na cerimónia é por donativo.
Estão todos bem-vindos!

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Meditação Matinal

A meditação é uma prática que mostrou ter méritos durante milénios. É um exercício que nos leve de encontro à calma interior e uma vida mais gratificante. Praticantes apontam inúmeras vantagens - ao nível emocional, psicológico, mental e físico.
Meditar com regularidade traz de volta uma certa alegria de viver e uma capacidade de (sor)rir!

Mas meditação não é um remédio que podemos tomar-e-tem-efeito. Não é um comprimido milagroso. Precisa de ser praticado, todos os dias um pouco.

Os pensamentos estão fora do nosso controlo
mas podemos observá-los sem reacção.
Emoções estão fora do nosso controlo,
mas podemos obervá-las sem reacção.
Relaxe!


Como qualquer arte, ofício ou talento, o caminho espiritual começa a abrir e dar resultados, consoante a energia que dedicamos à pratica. A disciplina é um apoio importante para fortalecer a fé e ganhar confiança na prática que escolhemos. (veja também este texto sobre a disciplina)

Diz-se que são precisos 10.000 horas de treino para chegar ao nivel de "especialista" numa determinada área (Malcolm Gladwell, in: Outliers). Obviamente, é apenas uma teoria. Mais: a pratica de meditação não tem como objectivo a competição ou ambição de ser o melhor na área.

Na realidade, a meditação é uma experiência profundamente pessoal, diferente de uma pessoa para outra. Dito isso, não deixa de ser verdade que empenhar conscientemente numa pratica espiritual e desenvolver uma disciplina regular, vai acelerar e intensificar a experiência!

Muitos praticantes dizem que meditar de manhã traz benificios adicionais. É mais fácil meditar quando a cabeça ainda está fresca e vazia; estabelecemos a energia para o dia todo. Os 20 ou 30 minutos sentados permitem uma passagem consciente do sono e sonho para o aqui-e-agora. Em vez de acordar com os pensamentos já no trabalho ou nos problemas do dia a dia, acordamos para quem somos hoje.

Nas meditações guiadas, no Cavalo de Vento oferecemos um lugar para descansar, reflectir e curar-nos. Agora, vamos abrir também um horário cedo de manhã, para quem quiser aprofundar a sua pratica individual de observação, de calma mental e insight.


As meditações que vamos fazer podemos chamar "atenção plena". A intenção é treinar a mente para que se mantém numa observação atenta e neutra. É um treino para ultrapassar hábitos de julgamento e padrões de reacção emocional, e utiliza suportes físicos, como a respiração, a postura ou os sentidos. É uma meditação de calma mental.

Outra vertente que vamos abordar é a vida interior, com exercícios do tipo vipassana. Em última análise, este tipo de meditação é um método gentil de entrar cada vez mais profundamente em contacto com a experiencia que é a vida. Gradualmente o praticante vai ouvindo, vendo, sentindo o que existe além das ilusões que o ego criou, até encontrar o estado luminoso da essência da vida.

As sessões terão lugar terças feiras das 07.15h às 08.00h na sala do Cavalo de Vento, Rua João de Deus 124 , Évora, a partir do dia 18 de Setembro.


7 dicas para intensificar a prática

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Despertar


Não sabes o que está por vir. Toda a segurança foi trocada agora que abriste o coração. 
Pensaste que o teu desenvolvimento espiritual levaria a uma certa serenidade, mas nada é menos verdadeiro. 
Abrindo-te para uma verdade mais profunda dá-te menos por onde agarrar e dá-te mais para sentir.

O espaço no teu coração agora é tão grande e permanece aberto até cobrir todo o universo. 
E tudo o que aconteceu fora de ti, agora acontece contigo. 
Cada cor que tocas e cada som, cada tom que ouves vem de dentro e abre caminho para as lágrimas saírem.
Radiance from your Heart - Daniel Holeman

Todas as pessoa que conheces e todos os animais, fazem parte de ti. 
A tua natureza espiritual não é uma consciência que te faz distanciar em silencio, mas dá ao teu humanismo a sua verdadeira face, finalmente. 
A luz da tua vida é um despertar de emoção, tristeza pelo sofrimento que vês e a grande beleza que te rodeia. 
A alma do tudo-que-é torna-se tangível, tangível, viva, em todos os olhos, em todos os pássaros assobiantes, mesmo na maneira como a luz dá cor ao teu quarto.

Não tenhas  medo deste sentimento profundo, essa experiência agridoce chamada viver a tua verdadeira natureza. Deixe a tua compaixão, a tua natureza humana, suavizar o mundo. Dá ao tudo que encontras o teu amor, até tudo ter assumido as cores maravilhosas do amor todo-abrangente.

 (autor desconhecido)

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Caminhos de Luz - As viagens históricas de peregrinação durante a expansão antiga do Budismo

Uma parte importante deste blogue é dedicado à filosofia budista, não só na sua vertente espiritual, mas igualmente na sua vertente histórica.
Hoje o Cavalo de Vento transcreve um texto sobre o desenvolvimento do Budismo. O texto é da autoria de Manuel FS Patrocinio, investigador da Universidade de Évora e CHAM Centro de Humanidades - NOVA



Antes de nós, no passado, quem se destacou na procura espiritual, que caminhos tomou, qual o seu legado e exemplo, em particular no que veio concretizar no Budismo histórico?


A experiência espiritual e a fé são intrínsecas à existência humana, indicando ligações únicas e propiciando olhares que transcendem o momento presente, resultando em aspectos que vieram revelar-se como sendo transversais à cultura, aos territórios e ao decurso do tempo. Revêm-se estes aspectos tanto no presente como no passado, sendo possível reconhecermo-nos em todos aqueles que nos antecederam que também protagonizaram um tal processo. O objectivo da espiritualidade será, sempre, alcançar o Céu, seja esta dimensão entendida (conforme se documenta pelas ideias que ficaram das sociedades que nos antecederam) como uma morada dos deuses, ou o Paraíso a que tanto referem as culturas e religiões; ou, tão simplesmente, como um sítio magnífico e perfeito, receba esse sítio o nome de Atlântida como o de Shangdu, na qualidade de lugar indispensável a qualquer geografia que seja construída pela esperança e pelo coração.

Caminhante no Deserto de Taklamakan 
(Região de Xinjiang, China)
A vivência da espiritualidade, manifestando-se em tudo o que se entende como sendo, por definição, imaterial, exprime-se num primeiro contacto que, de resto, se realiza com a terra. O ponto de partida do caminho do Céu começa, antes do mais, no próprio corpo e as primeiras estradas que se devem começar a percorrer são os próprios trilhos terrenos a que o corpo se oferece no seu movimento.

Já no passado se identificavam gestos e acções referentes à intenção de cumprir um caminho, entendendo-se que o caminho do Céu deveria iniciar-se nos próprios caminhos do mundo, destacando-se como viagens históricas as que se sucederam em períodos de afirmação das religiões. Considerando-se assim antigas épocas em que as correntes espirituais se vieram revelar na sua consolidação, é interessante observar o modo como as mesmas se manifestaram em contemporaneidade de séculos e até em contiguidade territorial, tendo em conta as regiões em que os principais acontecimentos se sucederam.


Os tempos de transformação das religiões

Tomando o exemplo da expansão do Cristianismo e da expansão do Budismo em relação aos seus respectivos focos de origem, observa-se que decorrem paralelamente num mesmo período compreendido entre os sécs. IV-VIII, em que se assinalam também a diáspora judaica e a ascensão do Islão ou ainda a transformação para uma via de novas formas do Hinduísmo (Índia), do Taoísmo (China) e Xintoísmo (Japão). Nas religiões, muitas vezes ditas primitivas, caso do animismo e do xamanismo, presentes em populações diversas, vieram a identificar-se igualmente transformações, sendo que a sua força acabava por se esbater no confronto com as religiões maiores, pois, carecendo de uma organização hierárquica definida, ao animismo e o xamanismo correspondiam práticas e crenças que espelhavam sobretudo a dimensão tribal dos grupos em que se originaram. Conservaram estes grupos, de qualquer modo, uma sabedoria que, mesmo não estando registada em qualquer literatura, sobreviveria em tradições duradouras.

Montanhas da Província de Khyber Pakhtunkhwa (Norte do Paquistão), correspondentes ao antigo território do Reino de Gandhara

Durante os mencionados séculos, desapareceriam aliás outros cultos significativos que havia conhecido preponderância, caso da religião dos antigos Romanos ou caso do druidismo e dos paganismos europeus. Foi um período em que se abandonaram- também as estruturas milenares de outros tempos, caso dos recintos megalíticos e dos templos clássicos, e, a breve termo, também sucederia o mesmo com os veneráveis santuários egípcios. Mas o que acabou por resultar das transformações destes séculos fulcrais adquire de qualquer modo, a nível religioso, contornos de uma construção civilizacional comparável ao Renascimento, trazendo ideias e uma produção literária abundante além de uma renovação monumental e arquitectónica que trouxe novos edifícios religiosos.


Que caminhos da fé em novos contextos civilizacionais?

Novos auges se revelavam e novas edificações religiosas erguer-se-iam do Mediterrâneo à China, transformando e recriando capitais como Roma e Jerusalém (consagrando aqui o Cristianismo inicial), ou como Bagdhad e as cidades do Reino de Gandhara, estabelecendo-se também importantes centros de peregrinação sob a forma de imponentes santuários rupestres em lugares até então inóspitos: nos montes de Udaygiri (Índia), assinalando a renovação do Hinduísmo, ou em Dunhuang, um oásis entre desertos, e que se tornaria num dos principais focos do Budismo na sua expansão para o Extremo-Oriente ao mesmo tempo que significou o estabelecimento de um posto fronteiriço avançado que alargava as fronteiras do China imperial.
Testemunhava-se assim nesta parte do mundo, que, desde o Mediterrâneo e atravessando a grande Pérsia, ia então até à Ásia central, a formação de rotas que ligavam reinos e Impérios, resultando nos itinerários da chamada Rota da Seda. Sendo principalmente itinerários destinados ao comércio, tornaram-se igualmente em caminhos religiosos, que, à época, começaram a ser também percorridos por primeiros monges peregrinos, interessados nas fontes de sabedoria espiritual.



Buddha na Terra Pura do Ocidente, Grutas de Mogao em Dunhuang
(Província de Gansu, China)

Na verdade, em assinalável diferença quanto às religiões anteriores a este período de séculos, que haviam estabelecido preceitos rígidos de distanciamento do indivíduo em relação à divindade, emergia agora, ao invés, a vontade de aproximação intimista e a possibilidade de modos de um contacto directo do indivíduo com o transcendente. Sendo que um aspecto que as diversas correntes religiosas que surgiam nesta fase evidenciavam ter afinal em comum, a espiritualidade adquiria uma expressão que se revestia de uma dimensão de experiência individual. Decorre em consequência também a renovação de práticas que vinham referir-se ao que era possível concretizar individualmente, caso das peregrinações e viagens. O Budismo, tendo surgido no Norte da Índia, expandira-se em via privilegiada para territórios ocidentais, correspondentes a velhos reinos com nomes que o tempo, porém, fez esquecer: Gandhara, Udhyana, Kush, Bactria, Sogdiana… (onde estão os actuais estados do Paquistão, Afeganistão, Tajiquistão, Uzbequistão ou Irão).

Representação de Avalokiteshvara-Padmapami nas Grutas de Ajanta
(Maharashtra, Índia), descritas em antigos roteiros
Que viajantes, empenhados num rumo de busca espiritual, se vieram a destacar para estes períodos? 

As compridas estradas continentais da Rota da Seda atravessavam então os antigos países, reinos e Impérios, e ao longo dos seus pontos mais estratégicos floresciam diversos santuários importantes e afamadas cidades, como Samarkanda ou Khotan, onde reis locais fomentavam a fundação de casas budistas e aí acorriam agora os monges vindos de longe, principalmente da China. Os nomes destes viajantes ficaram neste caso registados e o seu propósito final era levar de volta conhecimento do que estava já estabelecido para as comunidades budistas na Índia e Ásia central, como parte de uma missão que passava obviamente pela experiência das viagens que conduzissem aos lugares consagrados. Foi assim que o primeiro de tais célebres monges conhecidos, chamado Faxian, partiu em 399 da capital imperial de Chang’an para um périplo que o levaria, por rotas interiores, até Gandhara e depois à Índia, tendo deixado um relato pormenorizado: o Foguoji, ou Descrição dos Reinos Budistas.


Representação cultual do Monge Faxian no Templo Shingon de Daishô
(Miyajima, Perfeitura de Hiroshima, Japão)

Faxian, também conhecido como Fa Hien, regressaria munido da colecção de textos da Tripitaka, o cânone fundamental para os ensinamentos, realçando-se a importância da parte desse conjunto que era dedicada às regras monásticas: os Vinaya. A Faxian seguiu-se Sung Yun, que, enviado pela piedosa Imperatriz Hu, saiu com companheiros em 519 de outra das capitais chinesas, Luoyang, também rumo a Gandhara e Índia, voltando em 522 com cerca de 170 sutras. Há-de destacar-se outro monge, Xuanzang (ca. 600-664), nascido como Chen Yi, que repetiu idênticos itinerários e regressou também com um lote de textos e, com a tutela imperial, foi responsável pela consolidação do Budismo na China e desenvolveu estudos sobre a consciência e o karma, além de tradutor prolífero das obras que trouxera na sua viagem. Por fim, Yijing (635-713), que, partindo igualmente de Chang’an e saindo da China pelo porto de Yangzhou, se distinguiu por ter preferido a viagem por via marítima, tendo sido autor de uma Descrição do Budismo na Índia, visitando as cidades de Kapilavastu (entretanto desaparecida) e Sravasti, lugares ligados à vida de Siddharta Gautama.



O que nos foi legado como herança de espiritualidade?


Atraídos pelo que se manifestava atrás de um mundo tão fervilhante e composto de povos tão diferentes como era o período dos sécs. IV-VIII, um mundo que testemunharam e que descreveram com detalhes, Faxian, Sung Yun, Xuanzang ou Yijing foram tão só as figuras melhor conhecidas de uma lista que contava com mais integrantes. Atravessando terras, misturando-se no bulício das rotas e rivalidades políticas, estas figuras demonstraram que o caminho poderia ser uma forma de ascese, na procura da revelação e do conhecimento, tornando, pois, o sentido de caminho na sua aprendizagem privilegiada para a iluminação espiritual, mesmo num contexto de multiplicidades religiosas, em que facilmente se trocavam os cultos. De qualquer modo, à época, consagrava-se precisamente, a corrente do Budismo Mahayana, a apologia do que se designou como Grande Via e onde convergia este sentido simbólico do que se considerava o caminho. Após os seus anos de permanência nesses outros lugares, acabariam estes monges por levar consigo as cópias de sutras, orações e comentários recolhidos durante a sua estadia, além de terem redigido as memórias onde se fixou a sua voz. As suas diligências não só asseguraram a continuidade da expansão do Budismo para regiões cada vez mais orientais, como, além da própria transmissão dos textos da Tripitaka, conservou a compilação de textos ainda actualmente referenciados como base de ensinamentos, confirmando que a procura dos caminhos do Céu também se ligava aos caminhos do próprio mundo e às movimentações humanas.


Representação do Monge Xuanzang, num rolo pintado do séc. XI
(Período Song, China)




__________________________________________________________



Referências Chavannes, E.: Voyage de Song Yun dans l’Udhyana et le Gandhara. Bulletin de l’Ecole française d’Extrême-Orient, 3 (1903). Dalrymple, W.: From the Holy Mountain – A Journey in the Shadow of Byzantium (Londres, 1997). Frankopan, P.: The Silk Roads – A New History of the World (Londres, 2015). Sen, T.: The Travel Records of Chinese Pilgrims Faxian, Xuanzang, and Yijing. Education About Asia, Vol. 11 -3 (2006). Walter, M.N.; Fridman, E.J.N., eds.: Shamanism – An Encyclopedia of World Beliefs, Practices and Culture (Santa Barbara – California, 2004). Weerawardane, P.: Journey to the West – Dusty roads, stormy seas and transcendence. BiblioAsia, Vol. 5 – 2 (2009), 14-18. Fonte das imagens: WikiCommons e WikiSpaces.





quinta-feira, 26 de julho de 2018

Amor, compaixão, alegria e equanimidade são a própria natureza Buda

Quando procuramos um caminho para a Paz, num dado momento vamos encontrar o conceito de Amor Incondicional. O termo é conhecido, talvez mesmo compreensivel com o intelecto. No entanto, viver o amor incondicional é mais complicado. Transcrevo aqui alguns textos, que espero poderem ser uma inspiração para reflectir e meditar sobre o conceito e sobre o lugar do amor incondicional nas nossas vidas.

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O Buda deu este ensinamento ao seu filho Rahula:
"Rahula, pratica amor e bondade, para superar a raiva. A bondade tem a capacidade de trazer felicidade para os outros, sem exigir nada em troca. 
Pratica a compaixão, para superar a crueldade. A compaixão tem a capacidade de remover o sofrimento dos outros, sem esperar nada em troca.
  
Pratica a alegria altruísta, para vencer o ódio. Alegria altruísta surge quando se é alegra pela felicidade dos outros e se deseja aos  bem-estar e sucesso.
Prática o não-apego, para superar o preconceito. Desapego é a forma de olhar para todas as coisas abertamente e de forma igual. Isto é porque isto é. O eu e os outros não estão separados. Não rejeita uma coisa para perseguir o outro.

Chamo estes os quatro imensuráveis​​. Pratica-as e se tornará uma fonte refrescante de vitalidade e felicidade para os outros."
(Mahā Rāhulovada Suttanta)

Transcrevo as palavras de Thich Nhat Hanh acerca dos aspectos do verdadeiro amor:

"Amor, compaixão, alegria e equanimidade são a própria natureza Buda. São os quatro aspectos do verdadeiro amor dentro de nós, dentro das outras pessoas, e na verdade dentro de todas as coisas.

O primeiro aspecto do verdadeiro amor é Maitri, a intenção e capacidade de proporcionar alegria e felicidade. Para desenvolver essa capacidade, temos que praticar o enxergar e o ouvir em profundidade, para saber o que devemos fazer e não fazer para poder proporcionar felicidade aos outros.

Sem compreensão, o amor não é amor verdadeiro. É preciso observar em profundidade para poder enxergar e compreender as necessidades e aspirações, bem como o sofrimento daqueles que amamos. Nós todos precisamos de amor. Amor nos proporciona alegria e bem-estar. É natural como o ar que respiramos. Somos amados pelo ar, por isso precisamos de ar para ser felizes e nos sentir bem. Também somos amados pelas árvores, por isso necessitamos das árvores para nos manter saudáveis. Entretanto, para ser amados temos que amar, o que significa que precisamos compreender. Para que nosso amor possa se desenvolver, temos que escolher a acção ou a não-acção adequadas, de forma a proteger o ar, as árvores e aqueles que amamos.

"Amor" é uma linda palavra; seu verdadeiro sentido deveria ser restaurado. A palavra maitri tem o mesmo radical que a palavra mitra, que significa Amigo. No budismo, o sentido fundamental do amor é a Amizade. Todos nós temos dentro de nós as sementes do amor. Podemos desenvolver essa fonte maravilhosa de energia, nutrindo o amor incondicional, aquele que não espera nada em troca.

O segundo aspecto do verdadeiro amor é karuna, a intenção e a capacidade de soltar e transformar o sofrimento, aliviando a tristeza. Karuna é geralmente traduzida como "compaixão", mas isso não é totalmente correto. "Compaixão" é uma palavra composta de com ("junto com") e paixão ("sofrimento"). Mas nós não precisamos sofrer para remover o sofrimento de uma outra pessoa. Os médicos, por exemplo, são capazes de aliviar o sofrimento de seus pacientes sem passarem eles mesmos pela doença. Se sofrermos demasiado seremos esmagados, tornando-nos incapazes de ajudar seja quem for. Mesmo assim, até encontrar uma palavra melhor, usaremos "compaixão" como tradução para karuna.

Precisamos ter consciência do sofrimento que existe no mundo, mas sem perder nossa clareza, nossa calma e nossa força, para que possamos ajudar a transformar as situações. Um oceano de lágrimas não nos afogará desde que haja karuna. É por isso que o sorriso do Buda é possível.

O terceiro elemento que é parte do amor é mudita, a alegria. O verdadeiro amor sempre proporciona alegria, para nós e para as pessoas que amamos. Se nosso amor não trouxer alegria, não será um verdadeiro amor.

Drishta dharma sukha viharin significa "estar feliz no momento presente". Não nos lançamos ao futuro, porque sabemos que tudo o que importa está aqui, agora.

O quarto elemento do verdadeiro amor é upeksha, que significa equanimidade, desapego, não-discriminação, serenidade mental, ou a capacidade para deixar as coisas seguirem. Upa quer dizer "acima" e iksh significa "olhar". Você sobe uma montanha para poder olhar de cima, para a situação como um todo, sem se limitar a um lado ou a outro. Se o amor contiver apego, discriminação, preconceito ou desejo, não será um amor verdadeiro. As pessoas que não conhecem o budismo pensam que upeksha significa indiferença, mas a verdadeira equanimidade não é fria nem indiferente. Upeksha não significa que você ama, mas que ama de tal maneira que todos recebem amor, sem discriminação.

Upeksha traz a marca chamada samatajnana, "a sabedoria da igualdade", a capacidade de ver todos como iguais, de não discriminar entre o "eu" e os outros. Abandonamos toda a discriminação e o preconceito, removendo as barreiras entre nós e os outros. Enquanto enxergarmos a nós mesmos como aquele que ama, e o outro como aquele que é amado, enquanto dermos mais valor a nós mesmos do que aos outros, e nos considerarmos diferentes dos outros, não teremos atingido a verdadeira equanimidade. Temos que aprender a nos colocar no lugar da outra pessoa, tornando-nos unos com essa pessoa, se quisermos realmente compreender e amar o outro. Quando isso acontece, deixam de existir o "eu" e o "outro".

Sem upeksha, o amor se torna possessivo. Uma brisa de verão talvez seja refrescante, mas se tentarmos enlatar a brisa para tê-la ao nosso dispor, a brisa morrerá. Com as pessoas que amamos acontece a mesma coisa. A pessoa amada é como uma nuvem, uma brisa ou uma flor. Se você aprisioná-la em uma lata ela morrerá. Entretanto, muitas pessoas fazem exatamente isto. Tiram a liberdade de seus seres amados até o ponto onde a outra pessoa não consegue mais ser ela mesma. Vivem para satisfazer seus próprios desejos, usando o ser amado para ajudá-los a fazer isso. Isso não é amar, é destruir. Você diz que ama a pessoa, mas se não tentar entender seus anseios, necessidades e dificuldades, a pessoa viverá em uma prisão chamada de amor. O verdadeiro amor preserva a liberdade, e é isso que é upeksha.

Para que o amor seja verdadeiro, precisa conter compaixão, alegria e equanimidade. Para que a compaixão seja verdadeira, deve conter alegria, amor e equanimidade. Da mesma forma, a verdadeira equanimidade precisa conter amor, compaixão e alegria. Essa é a natureza interdependente dos Quatro Pensamentos Imensuráveis.

Mas é preciso que tenhamos a disciplina de contemplar tudo isso e praticar por nós mesmos os quatro aspectos do amor, trazendo o ensinamento para nossas próprias vidas e para as vidas daqueles que amamos."

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