A imagem de nós nasce do olhar dos outros
![]() |
O primeiro no actual período de eclipses foi um
eclipse lunar com o Sol em Carneiro e a Lua em Balança, os que nos indica que
os temas principais estejam ligados aos relacionamentos. Em foco está a relação
com os outros, bem como a relação connosco próprios. No lado positivo pode dar
nos a segurança de pertença e conexão. No entanto, Quiron ilumina as feridas –
sentimentos de abandono, solidão ou isolamento.
Tomamos forma na nossa relação com os outros. É nestas relações que nos percebemos quem somos. Construímos a nossa identidade, uma imagem de nós, que é feito de múltiplas reflexões. E é enquadrado nas projecções dos outros que decorre a relação connosco próprios. Ou, em palavras talvez mais diretas, criamos uma imagem de quem somos, através dos olhares dos outros. Tomamos consciência de nós e construímos a nossa identidade, através do reflexo que os outros nos dão. A maneira como gerimos estas projeções define a relação que mantemos connosco própios.
Cada um dos nossos relacionamentos olha para nós de certa maneira. Uns podem achar que somos arrogantes, enquanto outros possam achar-nos compassivos. Há quem diz que somos distantes, outros dizem que somos calorosos, facilmente irritados, alegres ou sérias.
Sabemos que pessoas diferentes têm olhares diferentes sobre nós. Mas facilmente esquecemos que a imagem que nós temos de nós próprios, é criada com base nestas reflexões todas. Cada uma destas relações devolve-nos no seu olhar uma versão de nós, que também tem a ver com a experiência do outro, da maneira como olha para o mundo. Podemos dizer que neste jogo de espelhos acabamos de ter múltiplas personalidades. No fundo, acolhemos em nós uma multitude de vozes, uma multitude de reflexos e projecções. Acaba por ser um coro de vozes vindo do nosso passado.
Mas ao mesmo tempo somos apenas uma pessoa: aquela que se sente. O eixo Balança – Carneiro realça esta oposição. Somos muitos, e somos Um, e somos todo a trajectória entre os dois.
É uma das lições fundamentais da vida. Uma lição sobre a solidão, porque sinto e sei que estou sozinha. Quero ser vista pelo outro, mas cá dentro ninguém me pode ver, porque cada um só vê uma parte de mim. E isto é uma solidão que traz consigo também a sensação de abandono, de estar sozinha no mundo. A sensação que os outros não estão aí para nós, que somos incapazes de ter uma verdadeira conexão. É uma sensação muito profunda, e faz parte das grandes consciencializações que uma pessoa pode tomar.
Não podemos esquecer que tudo isso é como se fosse construir uma imagem de nós. Nesta vida encontramo-nos dentro de um jogo de reflexões. Não há uma só realidade. Aos nossos olhos existe apenas o que nós conseguimos ver, a partir daquilo que nos é refletido. E o que nós vemos depende da história que contamos a nós próprios, interiormente, sobre quem somos e quem devíamos ser. A nossa identidade depende da maneira como nós nos vemos.
Actualmente vivemos numa cultura que idealiza o crescimento
e o progresso. O mundo em que vivemos devolve nos o ideal de crescer até algum
patamar de abundância e riqueza a que podemos chegar se tivéssemos mérito
suficiente e se nós empenhamos o suficiente.
É uma narrativa que põe o valor essencial da vida a distância. Como se o valor essencial da vida seria algo que apenas podemos almejar que provássemos que merecemos. Esta é a narrativa dominante da nossa economia, das escolas e até do mundo espiritual. Temos que caminhar e trabalhar, curar, evoluir, subir dimensões e no essencial, deixar de ser quem somos agora, para poder atingir o patamar da felicidade.
Não podemos esquecer que esse discurso não diz-nos a verdade sobre o propósito da vida. É um discurso que muda consoante os tempos em que se vive. Não há muito tempo o ideal não era o crescimento ou a cura continuada. Houve um tempo em que o Amor Fati era idealizado.
Amor Fati remete para o amor que podemos sentir pelo
nosso destino. Amor Fati não põe a ênfase na procura do valor e do propósito da
vida, nalgum patamar fora do individuo. Nesta visão, o mais importante é a
sensação de poder amar aquilo que somos hoje, e a vida que temos agora mesmo.
É uma filosofia que pode ajudar pôr em perspectiva a maneira que criamos hoje em dia a imagem que temos de nós. A história que contamos a nós próprios sobre quem somos, depende do tempo em que vivemos, dos olhos que nos olhem. Não nos diz nada sobre a nossa verdadeira natureza.
Podemos tentar contrapor uma outra história. Para um momento poder sentir que não somos as vozes que ressoam na nossa mente. Um momento só, para poder sentir que por detrás dessas vozes, que falam sobre mim, existe um outro ser, uma presença minha.
Aqui entre a meditação. Sentada na almofada, podemos experimentar, experienciar, que existe uma presença capaz de abraçar estas vozes todas. Que pode observar e ver como estas vozes, reflexões e projecções vindo do outro, acabam por construir a nós.
É algo muito poético, maravilhoso até, poder sentir
que o que Sou, é feito disso tudo. Cada um de nós traz um pouco do outro em si.
Ao mesmo tempo, nós existimos em todos aqueles com que nos encontramos ao longo
da vida.
É caso de pensar naquilo que contribuímos na construção
do outro. Que energia projectamos no nosso olhar? Olhamos com atenção e
curiosidade genuína, ou antes com inveja e sentido de competição? Olhamos com compaixão
ou com desdenho? No teu olhar sentes te igual ao outro ou superior?
Da mesma maneira que nós nos construímos a partir dos outros, somos construtores do outro. É através do teu olhar que o outro se vê. Se tiramos algum ensinamento no eixo Balança-Carneiro, que seja essa: olhemos para o outro de modo que nos faz bem sermos olhados: a partir desta Presença que abraça a todas as vozes e que nos faz sentir que por detrás de tudo, há conexão.
Comentários
Enviar um comentário