Cada um de nós tem uma chave para a sabedoria universal dentro de si. Abrindo o coração, entrando no silêncio, podemos aceder ao conhecimento que o vento murmura.

sexta-feira, 15 de março de 2019

Feche os olhos e veja


Absorvido pela dor que apertava o coração, o caminhante interrogou-se.

Não percebo. Como posso não querer segurança, se neste momento me sinto inseguro? Como posso não querer ser livre de sentir esta solidão, que me impede focar-me na paz e na felicidade? Cada instante que procuro sentir-me tranquilo, os pensamentos levantam voo e ocupam a mente como um bando de estorninhos. Cada vez que procuro criar sossego, o corpo inquieta-se e a dor surge. Como posso não querer ver me livre deste peso que trago em mim?

A voz respondeu: sente-te aqui, junto à pedra. Feche os olhos e veja.

A natureza gera-se por leis universais. A tua vida é natureza, por isso, as mesmas leis se aplicam a ti. A natureza da vida é mudança, apenas as leis da natureza são imutáveis.

A toda a acção corresponde uma reacção - todo o yin chama o yang para se poder harmonizar. A fluxo da vida oscila entre nascer e morrer, entre dar e receber.

Quando tomas consciência que queres algo, é porque existe algo que não queres.

Tudo faz parte deste grande conjunto. Uma mão só não consegue fazer o som de bater as palmas - precisa da mão oposta. Valorizas uma mão mais do que a outra?

O ser humano, como todos os seres, procura um equilíbrio que tornará possível a manutenção e continuidade da vida. Nisso não é diferente de uma rosa, uma raposa, uma mosca ou uma bactéria. Onde a forma humana é diferente, é na sua consciência, na sua mente. Não só sente, como sabe que sente. Tem a capacidade de interpretar o que sente - e é na interpretação que nasce o julgamento.

fonte
O veneno da serpente é um mal? Ou consideras mal, porque a dor da dentada te tolda a visão? Agora apenas vês a tua dor, perdendo de vista a função do veneno no conjunto da vida. A dor faz te pensar em ti apenas, esquecendo as circunstâncias que fizeram a serpente atacar e a tua própria história que te trouxe até este momento.

O veneno da serpente nem sempre é um mal - pode te levar a uma sabedoria maior. A dor causada pelo veneno pode ser um medicamento para a dor maior que a serpente acordou em ti: a dor de te sentires separado da natureza que te rodeia e que existe através de ti.

Tudo precisa do seu oposto para estar em equilíbrio: a morte confirme a existência da vida. A tua solidão é um convite para sentires que pertences.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Quando é que curamos a ferida da identidade?

Dia 19 de Fevereiro vai ver nascer a Lua Cheia em Virgem, com o Sol em Peixes.  

Surgindo no eixo Virgem-Peixes, esta Lua Cheia pede para encontrar um equilibro entre  as rotinas do dia-a-dia, a saúde física e a necessidade de haver ordem (Virgem) por um lado, e por outro lado a saúde espiritual,  a visão, o caos e o infinito (Peixes). Virgem oferece-nos as ferramentas para lidar com a vida do dia-a-dia, enquanto Peixes oferece orientação para lidar com o nosso eu espiritual.

Quando olhamos para os simbolos Sabianos, vemos o seguinte símbolo:
Num retrato, os traços significativos da cabeça de um homem são artisticamente acentuados.
O grau 01 de Virgem revela uma pessoa que traz em si mesma a grande característica desse signo que é a "Discriminação", ou seja, "a capacidade de representar diante de si mesmo e para os outros os traços salientes e o significado geral de qualquer situação de vida."

O Signo de Virgem é aquele que dá ordem a tudo no universo, cuidando dos pormenores, oposto ao signo de Peixes que é a energia arquetípica do caos, da totalidade.

Também devemos olhar para o Sabian do Sol, já que é a fonte da luz lunar. 
Num mercado apinhado, produtores e intermediários exibem uma grande variedade de produtos.
O grau 01 de Peixes nos revela uma pessoa ou situação que busca para si mesma e para a comunidade com a qual convive, uma imensa variedade de produtos relativos à sobrevivência do cotidiano. Sua palavra-chave é "comércio". 

A simbologia parece estar de acordo com a posição da Lua em relação a Quiron - faz um quinconcio, ou seja, estão numa relação de não compreensão, não se entendem. 
Quiron entra em Carneiro a 18 de Fevereiro, chamando-nos para curarmos as questões de responsabilidade, liderança, a individualidade. Parece que é mesmo a altura certa para olharmos para as nossas sensibilidades e deixarmos de lado as mágoas que acumulámos à volta do nosso Eu. 


Quíron é conhecido como "o curandeiro ferido". De facto, a vida sempre contém um componente que não pode ser totalmente consertado ou desfeito. Não se pode mudar o passado - o que está feito está feito e às vezes os acontecimentos deixam uma cicatriz. Essas cicatrizes tornam-se parte de nós, mas não devemos deixar que nos impedem avançar ou que condicionem a nossa evolução.

O objetivo de Quíron na astrologia é nos ajudar na cura dos assuntos mais profundos. A cura pode parecer uma questão muito pessoal, e as nossas feridas fazem parte da história com a qual nós construimos a nossa identidade. No entanto, Quíron quer que transcendamos a experiência pessoal. O que sentimos não é só a nossa dor, é a dor humana - e a dor da humanidade.
O que sentimos não é "nossa" luta com a auto-estima, é um incentivo para aceder à compaixão por todas as pessoas que sofrem com a falta de auto-estima. Quíron é como um nó que temos que desfazer para nós mesmos, para que toda a humanidade possa estar livre deste nó.

Quiron tem uma órbita irregular e passa mais tempo num signos do que noutros. Quíron passa a maior parte do tempo em Peixes e Carneiro (8 a 9 anos).
Isso é interessante porque Peixes é o último signo do zodíaco, e Carneiros o primeiro - são os signos onde há mais trabalho a fazer. Peixes remete para o fim de tudo, Carneiro para o começo de todas as possibilidades. Ficando mais tempo nestes signos, Quiron actua como um elo entre o inconsciente e o consciente, entre a materialidade e a imaterialidade. 

Quiron o Centauro: uma ponte entre duas dimensões
O mesmo tema (de ligar dois diferentes domínios da existência) surge quando vemos a órbita de Quíron. Este asteroide orbita entre Saturno (o último planeta visível) e Urano (o primeiro planeta ligado ao transpessoal). Ao orbitar entre Saturno e Urano, Quíron liga nossa experiência pessoal à experiência coletiva.

Ao entrar em Carneiro, Quiron pede para tratar e curar, de uma vez por todas, a ferida da identidade, uma ferida com a qual todos nascemos. Trata-se de assumir a responsabilidade pela nossa existência, é sobre estar presente, feridas inclusivas e incluindo a nossa dor e a nossa vergonha.

Quiron pede nos de nos mostrarmos, apesar da dor. Estamos neste mundo por alguma razão! A tua existência é a prova que mereces estar aqui e agora. Há uma razão pela qual nasceste tal e qual como és, resultado único entre todas as combinações genéticas possíveis.

E não só temos direito de existir, estamos aqui por alguma razão. Cada um de nós é uma expressão única do Divino destinado a viver e exprimir os dons e talentos. Cada um de nós é muito mais do que podemos pensar. Toda a história do universo fez com que cada um pudesse estar aqui hoje.
Quando todas as partes, as sãs e as feridas, as inteiras e quebradas, as luminosas e as escuras, se juntam novamente num só conjunto, chega a realização plena. 

Mas para isso acontecer, precisamos de juntar as partes, mesmo aquelas que dõem, que causam raiva ou vergonha, que queremos esquecer ou esconder. Fazem parte de nós e da nossa história. Ao permitir que elas existem, permitimos a nós que existimos. 
E é assim que podemos encontrar a chave, a ordem superior, e o significado mais elevado da nossa existência.



Celebração e Meditação da Lua Cheia
Local: Cromeleque dos Almendres, Guadalupe, Évora
Data: 19 de Fevereiro (3a feira)
Início: 18h.
Para a cerimónia no Cromeleque, é costume trazer uma oferenda em agradecimento ao sítio: um pau de incenso, um pouco de água, uma pedrinha, uma flor, ou o que achar adequado para exprimir a gratidão. Participação na cerimónia por donativo.

domingo, 6 de janeiro de 2019

Criar a paz agora

É um prazer fazer meditação no campo. Há um sossego especial e reconfortante no ruído calmo da ribeira e no canto dos pássaros. Pequenas interrupções, como o som da queda de um ramo ou bolota, ou o grito de uma ave de rapina, apenas sublinham a paz à nossa volta. Dá vontade de pensar que estando imersos na natureza, a nossa meditação resulta melhor!

No momento em que este pensamento surge, surge também uma armadilha que na minha experiência dificulta profundamente o caminho espiritual: a ideia que existe um lugar ideal e circunstâncias perfeitas - que não existem aqui e agora.
No entanto, sabemos que é apenas um preconceito, inventado porque não estamos a gostar das circunstâncias actuais da vida... (veja o texto de Ngakpa Chögyam: o melhor sitio para meditar é aqui)

Uma armadilha que vem na mesma linha, é ideia que precisamos de procurar ser melhor pessoa, que é preciso mudar para ser livre e feliz. Procuramos felicidade, porque sentimos infeliz. Procuramos segurança e estabilidade, porque sentimo-nos inseguros e vulneráveis.


É estranho, como o próprio desejo para ter paz e ser feliz, pode trazer dentro de si a semente da aniquilação da mesma paz.
Uma lei universal: a Luz traz em si, a semente da escuridão. Uma nasce da outra. Dia e noite, verão e inverno, bem e mal, yin e yang. Uma não existe sem a outra, e a mudança é constante. 

Alan Watts (filósofo britanico,1915-1973) dizia que é no proprio acto de querer, que nasce a contradição.
There is a contradiction in wanting to be perfectly secure in a universe whose very nature is momentariness and fluidity. But the contradiction lies a little deeper than the mere conflict between the desire for security and the fact of change. If I want to be secure, that is, protected from the flux of life, I am wanting to be separate from life. Yet it is this very sense of separateness which makes me feel insecure. To be secure means to isolate and fortify the “I,” but it is just the feeling of being an isolated “I” which makes me feel lonely and afraid. In other words, the more security I can get, the more I shall want.
To put it still more plainly: the desire for security and the feeling of insecurity are the same thing. To hold your breath is to lose your breath. A society based on the quest for security is nothing but a breath-retention contest in which everyone is as taut as a drum and as purple as a beet.

"Há uma contradição em querer estar perfeitamente seguro num universo cuja própria natureza é a momentaneidade e fluidez. Mas a contradição é um pouco mais profunda do que o mero conflito entre o desejo de segurança e o facto da mudança. Se eu quero estar seguro, isto é, protegido do fluxo da vida, quero de facto estar separado da vida. No entanto, é esse mesmo sentimento de separação que me faz sentir inseguro. Ser seguro significa isolar e fortalecer o "eu", mas é apenas a sensação de ser um "eu" isolado que me faz sentir solitário e amedrontado. Em outras palavras, quanto mais segurança eu puder obter, mais eu irei querer.
Para colocá-lo ainda mais claramente: o desejo de segurança e o sentimento de insegurança são a mesma coisa. Prender a respiração é perder a respiração. Uma sociedade baseada na busca pela segurança nada mais é do que uma competição de retenção da respiração, na qual todos são tão tensos quanto um tambor e tão roxos quanto uma beterraba."



Com o novo ano iniciou-se um novo ciclo. Vivemos dias em que se fazem desejos, estabelecem-se intenções. Desde disciplinar as idas ao ginásio até ser mais generoso e paciente, há decisões para todos os gostos. Queremos ser feliz! Queremos deixar o passado para trás e criar um futuro melhor.
São fruto de reflexão e auto-avaliação, e ferramentas importantes para a evolução - sementes que plantamos.


Para que estas sementes possam crescer e florescer, não basta regar. Lembro-me das palavras de Joe Dispenza: “The quantum field responds not to what we want; it responds to who we are being.” (o campo quantico não responde àquilo que queremos, responde àquilo que estamos sendo).


Aqui está a armadilha: podemos querer ser feliz no futuro, mas se estamos infeliz no aqui e agora, é isso que o Universo nos reflectirá.
Quando os sábios dizem "não há caminho para a felicidade", falam disso. A felicidade nao é algo para alcançar no final do processo, é algo para viver agora.
Quando os mestres nos falam de Viver no Aqui e Agora, é disso que falam: o futuro só acontece se for criado agora.

Podemos desejar uma vida melhor, mais saúde, mais criatividade, mais abundância - é natural, todos queremos ser feliz. No entanto, se estamos a criar este desejo na base da aversão à nossa situação actual, estamos a introduzir uma dissonância na energia que desejamos criar - e o Universo nos retribuirá dissonância. É a Lei da Atracção a funcionar. 

Se o que queremos é ser feliz, e viver com paz de espírito, vamos ter que fazer por isso. Acima de tudo é preciso fazer as pazes connosco. Aceitar a situação em que estamos e a dor que sentimos. Aceitar, não no sentido de resignar, mas no sentido de entender que este é a situação em que nos encontramos. Tudo faz parte - e há alturas que nos permitem abraçar não só a Luz (o que é fácil porque é a luz que desejamos) mas também a Escuridão (o que é difícil porque a sombra causa nos aversão).

Paz de espírito acontece quando os extremos se equilibram - infelicidade surge quando há conflicto entre os dois extremos. Tudo depende de como olhamos a dinâmica: se sentimos que temos que combater o mal, acentuamos o conflicto. Se desejamos a Luz e rejeitamos a Sombra, criamos conflito e desequilibrio. Mas se conseguimos entender que ambos os extremos pertencem ao conjunto e são indispensáveis para o equilíbrio, podemos saír do julgamento que um lado é melhor do que o outro - e ficar no centro.

A observação da Natureza pode ajudar nos a encontrar a paz. Há fluidez, mudança, morte e renascimento, sol e sombra, tudo num jogo de equilibrio dinâmico. A Natureza não julga. A águia não é melhor ou mais desejável do que o rato. O frio estéril do inverno leve à doçura fertil da primavera. Uma estação a precisar da outra.

Se no aqui e agora, conseguimos deixar de pensar em "melhor" ou "pior", se conseguimos educar a nossa mente em deixar de comparar, podemos saír do conflito e criar paz Agora.












terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Dia 1 de Janeiro de 2019

O ano tem um início lindíssimo. No céu azul corre uma brisa fresca que traz o canto dos pássaros e o murmurar tranquilo da ribeira. Um dia como muitos no inverno alentejano, com a diferença que hoje é o primeiro dia do novo ano, segundo o calendário gregoriano.

(link para mais info sobre o ano universal 3)
Um dia carregado de simbolismo: dia 1 do mês 1 – um novo início, oportunidade de darmos forma a quem queremos ser. A numerologia ainda diz que 2019 será um “ano 3”, simbolizando potencial, coragem, optimismo e oportunidades, mas também amor-próprio, auto-estima e auto-aceitação. Astrólogos prevêem um ano benéfico, porque Júpiter vai estar em Sagitário. Júpiter é aquele planeta bom que associamos à sorte e às oportunidades.

Um novo ano, um novo ciclo, interrogações: o que será que este ano me vai trazer? É uma pergunta recorrente, em cada novo ciclo procuramos perceber os sinais, para poder escolher melhor o rumo da nossa vida. As cartas, os astros, os animais que se cruzem connosco, a numerologia, I-Ching, as runas, as linhas da mão – um sem-número de sistemas onde procuramos uma indicação do destino que nos espera.

Procuramos sinais do destino, mesmo sabendo que cada um de nós constrói o seu próprio futuro. Através de pensamentos, gestos e palavras geramos a energia e as vibrações que definem o rumo da nossa vida. Temos livre vontade, livre arbítrio – podemos escolher os pensamentos, os padrões, e mesmo as emoções que vivemos. A mente humana é fabulosa, permite-nos ter consciência dos nossos actos e consequentemente, permite-nos escolher o que desejamos criar.

Será? Temos mesmo liberdade absoluta na criação do nosso futuro? Ou está tudo escrito nos astros e é o Criador que decide?

Observar a natureza e os sinais é uma maneira para dar sentido e entender onde vai o nosso caminho. A procura de aconselhamento parece estar na natureza humana, e todas as culturas têm os seus sistemas e oráculos. O mais famoso oráculo é o de Delfos onde uma sacerdotisa, estando em transe, respondia às perguntas.

No entanto, os visitantes receberam um aviso antes de entrar no templo, através de uma inscrição no pórtico: “Advirto-te, seja quem fores! Tu que desejas sondar os mistérios da natureza!...
Se não encontrares dentro de ti mesmo o que procuras, tampouco poderás encontrar fora... Se ignoras as excelências de tua própria casa, como pretendes encontrar outras excelências?
Em ti está oculto o tesouro dos tesouros!"


o caminho é teu para criar
Trazemos dentro de nós todas as respostas. O único momento que temos, é este em que que vivemos - e a única estabilidade no meio das mudanças todas, é a nossa própria presença. Observando o que pensamos, como reagimos, o que sentimos e o que fazemos podemos perceber se estamos a perpetuar o passado ou a criar um futuro diferente.

No dia 1 de Janeiro desejamos um ao outro Feliz Ano Novo, com saúde, abundância, alegria, amor e amizade. Para isso poder acontecer, gostaria de desejar-te para hoje (e todos os dias) pensamentos de paz, gestos de compaixão, actos de generosidade e sentimentos de alegria e prazer!







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Quem quiser aproveitar o inicio do novo ano para iniciar ou aprofundar o caminho do auto-conhecimento, pode encontrar no Cavalo de Vento várias opções. Meditação, retiros, workshops mas também rituais para marcar os ciclos da natureza e da vida e consultas de soundhealing ou soul-coaching. Veja a agenda ou contacta-me por mail!

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Rumo ao chão sagrado (IV): Os lugares budistas como fontes da sabedoria espiritual

As rotas e percursos que tiveram lugar em séculos antigos conferiram não apenas atenção aos sítios e aos seus monumentos, que mostravam o que de especial ali sucedera, entre santuários e templos, mas também descreviam os vihāra, ou mosteiros, então ali fundados e que, apesar dos séculos, se mantiveram. Qual o seu papel e importância no contexto do Budismo antigo?

A existência de Gautama Buda veio a ser assinalada por gestos e acções significativas, mas, sobretudo, pelas suas palavras, que se constituíram como ensinamento supremo a que podia almejar quem estivesse decidido a seguir uma vida de aperfeiçoamento espiritual, e que resultaram assim no conjunto de Sutras (em Pāli: Suttas) que eram uma das bases canónicas do emergente Budismo.
Após a Iluminação, foi em Sarnath que se diz que Siddhārta proferiu os seus primeiros discursos, e, continuando deambulações, assim ia permanecendo noutras cidades, prosseguindo as suas prédicas e exposição de ideias, como sucedeu em Śrāvastī, onde se veio a fundar o Jetāvana, famoso grande mosteiro, ou em Varanasi-Benares, e, ainda, em
Vaiśālī, onde se diz que também fez a primeira ordenação de mulheres monjas.
 
Monges em oração no Gandhakuti, ou Aposentos de Buda
no Jetāvana (lugar da antiga Śrāvastī)

Faxian concedeu, na sua Descrição, grandes atenções ao Mosteiro Jetāvana em Śrāvastī, sendo outrora capital do Reino de Kosala, mas também entretanto reduzida a ruínas, e na qual o mesmo mosteiro constituía um dos principais centros de sabedoria, cujos vestígios continuam de qualquer modo a ser destino de veneração. Desde logo, o respeito exprimia-se por se estar perante um lugar que o Gautama Buda habitara duradouramente, e, salientava o monge: “mais do que em qualquer outro sítio” e um dos principais da sua pregação. Faxian descreveu também a quantidade de estátuas ali existentes e que reforçavam o sentido de uma presença perene.

Localizada estrategicamente entre diversos territórios,Śrāvastī (Savatthi em Páli) estava no cruzamento de vias que não apenas partiam de várias regiões da Índia, como também das que ligavam a Ásia interior ao sul do subcontinente. Estava também no cruzamento cultural entre o Hinduísmo e o Budismo, combinando legados, tendo sido mencionada em poemas épicos mais antigos, como o Mahābhārata e o Rāmayāna. No séc. V, mantinha-se ali a própria rivalidade entre os ancestrais grupos brâmanes e os “novos” grupos budistas; a sabedoria de uns e outros, porém, por vezes combinava-se numa síntese conceptual, sendo o Jetāvana vihāra tão só o mais destacado dos estabelecimentos religiosos e centro de ensinamento espiritual dos muitos outros também ali existentes, cenário de tais convergências.

Em Kushinagari, outro dos grandes Aṣṭamahācaitya, evocava-se a morte de Buda e a entrada no nirvāna, guardando-se uma grande imagem de Buda deitado no Templo
Mahāparinirvāa. Era esse o tema magno de um texto que veio a ser referencial, precisamente intitulado: Mahāparinirvāa Sūtra, ainda que em grande parte fosse constituído pelo encómio a Ananda, primo de Siddhārta e também figura fundadora do Budismo. Correspondendo à Sutra XVI, compilada inicialmente no Dīghanikāya, será o maior dos escritos do antigo Cânone Pāli, vindo especialmente a destacar-se na corrente Theravāda, que teria, também no séc. V, como principal comentador a figura de Buddhagosa, com escola no Śrī Lakā (Ceilão).
 
Estátua de Buddha parinibbana ou parinirvana, no Santuário Mahaparinirvana
(Kushinagar, Uttar Pradesh, União Indiana)

Não só nos momentos de vida de Gautama, como no seu nirvāna, o significado particular do Budismo resultava portanto em concretizações que conheciam a forma de textos, associando-se ao sentido das palavras. Em Samkasya, enquanto lugar a acrescentar também à enumeração dos Aṣṭamahācaitya, foi onde Buda ascendeu ao Paraíso de Trayastrimsas, sem que os seus discípulos se apercebessem da sua ausência, e, de novo, para discorrer sobre o Abhidharma às entidades espirituais que aí habitavam, indo depois ao Paraíso de Tushita, onde os bodhisattva permaneciam e onde estava a sua mãe, transmitindo-lhe também ensinamentos.
Todos estes sítios, fosse em dimensões celestes ou em lugares terrenos depois monumentalizados em expressão devocional, distinguiam-se afinal por serem os sítios onde haviam emergido as palavras de Buda, e que se haveriam de conservar nos documentos que os mosteiros guardaram ao seu cuidado.

Eram particularmente os mosteiros também centros de sabedoria e de conhecimento, e depositários das palavras de Buda que haviam sido passadas à forma escrita. O maior objectivo dos viajantes, como Faxian, era levar cópias desses escritos para as terras de origem, missão a que dedicavam todas as suas capacidades.

Em Rājagiha (Rajagaha em Pāli, e actual Rajgir, distante a sul no Estado de Bihar), situava-se o sítio identificado muitas vezes como a Terra Pura de Buda, em ideia especialmente difundida pela corrente Mahāyāna. Aí permanecia Buda, demorada e frequentemente. Na área de Rajgir subsistiu um santuário simples no topo do Monte dos Abutres, mantendo-se como um ponto de peregrinação, tendo sido nesse outro lugar que, pouco antes da sua derradeira deslocação a Kushinagari, Gautama Buda ensinou aquilo que viria a ser conhecido como a Sutra do Lotus e o Discurso da Perfeição do Sabedoria (ou Prajnaparamita).
 
Vista do Monte dos Abutres, ou Grdhrakuta e seu santuário
(Rajgir, Estado de Bihar, União Indiana)

Foi em Rājagiha, logo após a morte de Gautama, que houve o célebre Primeiro Concílio durante o qual as palavras de Buda foram repetidas por todos os discípulos, dizendo-se que haviam sido totalmente memorizadas por cada um.
Diz-se que se reuniram então 500 discípulos, ou arhats que, na Caverna de Srataparna, das várias que existiam na região, procederam assim à Sangiti, ou Recitação, cabendo a Ananda o protagonismo de transmitir muitos dos discursos de Buda Passados seguidamente à forma escrita, surgia a primeira compilação de Sutras (Sutta Pitaka), originando o Cânone Pāli. O Concílio foi ainda dirigido por outra figura santa, Mahakassapa, homónimo do antecessor de Gautama, tradicionalmente representado com a pele dourada, pois, como também era contado, Kassapa Buddha ter-lhe-ia aparecido e tocado, e permanecera esse dourado como uma dádiva, ao mesmo tempo que exprimia a sua grande espiritualidade.

Um Segundo Concílio seguir-se-ia anos depois em Vaiśālī (onde Ananda faleceu, referindo Faxian que era precisamente “sua vontade que o seu parinirvana sucedesse ali”) e, desta vez, reunindo-se 700 participantes, incluindo monges que pretendiam chegar ao entendimento do que seria a sua organização colectiva, a Sagha.
Resultou, portanto, deste Segundo Concílio a elaboração das regras para as comunidades no designado Vinayāpiaka. À componente fundamental das Sutras compiladas no primeiro concílio, e que se juntaram os escritos sobre o  Abhidharma adicionaram-se assim as regras do Vinayāpiaka, ou sejam as Mahāsāghika, compondo finalmente o que seria depois conhecido como Tripiaka, ou “Os Três Cestos” da sabedoria, e em que o Tripiaka , ou base canónica do Budismo, ficou convencionalmente repartido, fundamental ao Theravāda mas também à corrente Mahāyāna, derivando assim dos textos já compilados no antigo Cânone Pāli.
 
Os territórios entre a Bacia do Ganges e os Himalayas e os lugares originais do Budismo

Deste modo, no contexto de consolidação do Budismo, a articulação de itinerários como os que ficaram subjacentes aos Aṣṭamahācaitya, veio a comportar a peregrinação, não apenas por lugares associados à vida de Gautama, como também pelos sítios onde propriamente Buda proferiu ensinamentos, e que, além de templos e mosteiros, resultaria igualmente na fundação de escolas e arquivos que consolidaram sabedoria, conservando-se os textos resultantes do esforço de compilação dos Concílios. Fora, de resto, pela pregação que surgira o qualificativo de Siddhārta Gautama como Śākyamuni, ou o “Sábio dos Śākya
” e epíteto predilecto usado pelas correntes do Budismo Mahāyāna, salientando o sentido de comunicação de Gautama Buda.

Certo é, quase mil anos depois da existência de Buda, o seu legado saira já dos territórios de origem no Norte e Centro da Índia para a sua circum-vizinhança – e chegando por fim à China. Em reforço dessa expansão cada vez mais para o Extremo-Oriente, esteve o protagonismo de Faxian, cujo final de viagem decorreu num mosteiro emaliputra (Patna), que fora a capital imperial de Ashoka. Tendo seguido os passos de Buda, de Rajgir até Bodh-Gaya, Faxian retornou a Varanasi, não sem fazer ainda uma outra célebre incursão até territórios centrais para visitar um mosteiro consagrado a Kassapa Buddha.

Foi daí que se dirigiu a aliputra (Patna) onde se recolheu num mosteiro Mahāyāna para estudar junto de um Mestre, que identificou com o nome de Radhasami, e onde estavam também vários outros sábios e uma multidão de monges e estudantes. Conforme contou no seu relato, Faxian ficou aí durante três anos, aprendendo Sânscrito e finalmente copiando e depois traduzindo as regras monásticas, ou Mahasanghika, expostas na Vinayāpiaka, conforme um exemplar ali conservado (e contando que havia outro idêntico no Jetāvana).
Ao fim desse tempo, encetou a rota de regresso desta vez por mar, passando o Śrī Lakā (Ceilão) e a actual Indonésia carregado de tais cópias e demais textos na sua bagagem, que salvaguardou, lançando fora até outros pertences pessoais nas ocasiões de grandes tempestades apenas para proteger o que constituía sem dúvida um tesouro dos céus. Tão só agradeceu ao divino ter merecido a sua protecção e os escritos que conservou passaram para o futuro.

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Manuel F.S. Patrocínio

Universidade de Évora – ECS Escola de Ciências Sociais, Departamento de História
CHAM – Centro de Humanidades NOVA UAc

Referências – Chavannes, E. Voyage de Song Yun dans l’Udhyana et le Gandhara. Bulletin de l’Ecole française d’Extrême-Orient. 3 (1903), 379-441. Frankopan, P. The Silk Roads – A New History of the World (Londres, 2015). Gettin, R. The Foundations of Buddhism (Oxford, 1998). Guang Xing. The Concept of Buddha (Abingdon – Nova Iorque). Huntington, J.C. Sowing the Seed of the Lotus – A Journey to the Great Pilgrimage Sites of Buddism. Orientations. Vol. 17 - 9 (1986), 46-58. Legge, J. ed. A Record of Buddhistic Kingdoms, by Fâ-Hien (Oxford, 1886). Norman, K.R. A History of Indian Literature, Vol. 7 – 2: “Páli Literature” (Wiesbaden, 1983). Sen, T. The Travel Records of Chinese Pilgrims Faxian, Xuanzang, and Yijing. Education About Asia. Vol. 11 -3 (2006). Weerawardane, P. Journey to the West – Dusty roads, stormy seas and transcendence. BiblioAsia. Vol. 5 - 2 (2009), 14-18.

Fonte das imagens: Wikimedia Commons.





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