Meditação e caminhada - sinergia e equilibrio

 


É desde 2012 que organizo e conduzo retiros de meditação. Nos primeiros anos, estes retiros estavam muito virados para a cura espiritual. Estávamos a passar por um período em que as pessoas sentiram uma urgência para lidar com as suas feridas. Nestes anos, houve uma verdadeira emancipação: percebemos que somos nós os responsáveis pela nossa paz interior e pelo nosso destino. Somos nós que somos capazes de nos reconstruir, recompor, redirecionar. A cura e a paz interior eram, portanto, o foco principal.

Recorri nestes retiros à meditação e às sessões de sons, orientando me pelos ensinamentos budistas e xamânicas que recebi ao longo do meu percurso pessoal.

Mas a Terra gira, os tempos mudam, a energia do mundo está diferente. As necessidades agora são outras e o momento em que vivemos pede que pomos em prática aquilo para o qual nos preparámos: a construção de uma nova harmonia.
 

Estamos num mundo de contrastes e opostos, campos entrincheirados e situações extremas. O tempo acelerou e aquilo que demorava, agora é cada vez mais imediato. Também os processos de cura têm acesso a esta aceleração. Agora, quem sabe usar a sua força inata e natural, pode ver mudanças imediatas.

Por isso, comecei a alterar a maneira de pensar os retiros. Agora, o foco está em proporcionar aos participantes um espaço em que podem encontrar a sua força natural e inata, para que possam dar forma à sua vida.
 

Que caminho para encontrar a força interior para fazer a mudança?


O ponto de partida é a nossa natureza de ser humano. Somos seres duais! Por um lado, sabemos que estamos ligados aos outros e à natureza. Sabemos porque sentimos a energia dos outros; somos influenciados pelas circunstâncias em que vivemos; sentimos a proximidade de quem amamos. Por outro lado, estamos neste corpo físico que nos faz experienciar a distância e a solidão. O eu contra os outros, ser vítima ou em controlo – vivemos como estivéssemos separados daquilo que nos rodeia. Somos seres físicos e biológicos – enquanto somos igualmente seres espirituais. Somos aos mesmo tempo mente e consciência, corpo e alma, pensar e sentir.

Por isso, fazem parte do programa dos retiros as caminhadas para sentir o corpo e procuro a colaboração de cozinheiras/os que nutrem esse corpo com comida de qualidade, amor e sensações agradáveis.

Continuamos a fazer meditações, em que procuramos a conexão com a Terra e a expansão da consciência.

O terceiro pilar é a reflexão. Aqui procurei uma abordagem que permitirá ir à questão fundamental quando falamos de dar forma à nossa vida: Que escolhas fazemos? Em que valores baseamos as nossas escolhas e opções?


Equilíbrio e sinergia

Com essas considerações em mente, comecei a estudar duas correntes filosóficos que parecem opostas, na sua origem e na sua abordagem: o estoicismo e o taoismo.

O objetivo central de ambas as filosofias é viver em harmonia com a Natureza, o que é considerado o máximo que se pode alcançar na vida. Como fazemos parte da natureza, dentro de nós existem características que podemos encontrar na Natureza que observamos à nossa volta. São princípios maiores do que nós aos quais temos acesso e que nos ajudam a compreender o mundo. Ao praticar os princípios, podemos viver em harmonia - porque vivemos em harmonia com a Natureza. Será o pico de desenvolvimento pessoal e espiritual e toda a filosofia (de ambos as tradições) decorre desta compreensão da Natureza.

Enquanto o estoicismo é um sistema marcadamente mental, o taoismo é mais místico. Assim temos duas aproximações que parecem contraditórias, mas que, na pratica, podem ser complementares.

Quando nos dedicamos totalmente a um único sistema filosófico, corremos o risco de ter uma visão limitada. Isso acontece porque, na vida do dia-a-dia, aplicamos apenas alguns princípios, que geralmente serão aqueles que nos são mais familiares. Uma segunda filosofia que tem pontos em comum, mas também contrastantes, ajuda a manter a mente atenta e vigilante.

Um exemplo desta complementaridade


O estoicismo gira em torno de quatro virtudes - justiça, coragem, autocontrole e sabedoria. Uma vida boa é aquela em que se busca esses valores, independentemente das circunstâncias. O taoísmo enfatiza o “wu wei”: agir em harmonia com o fluxo natural das coisas, sem forçar.

Podes agir moralmente (estoicismo) sem te tornares rígido (taoísmo). O estoicismo ajuda a manter princípios éticos, mesmo quando isso é difícil. Entretanto, o taoísmo lembra de não te tornares dogmático, mas permanecer flexível e aberto àquilo que a situação exige. Por exemplo, deixa em aberto se deves responder agora ou se é algo que deve acontecer por si só.

A vida pode ser livre e divertida (taoísmo) sem chegar a flutuar sem rumo (estoicismo). O treino da mente é importante (estoicismo), mas sem ser forçado (taoísmo). O estoicismo ajuda a manter-te calmo e firme, mesmo em situações difíceis. O taoísmo ajuda a não te agarrar rigidamente à forma como as coisas deveriam ser. Juntos, estes duas filosofias podem mostrar-te como ter uma mente forte e a flexibilidade necessária para não te quebrares.

Como usamos estas filosofias nos retiros


Em cada retiro há duas sessões de reflexão em que falamos de temas específicos. Neste retiro falamos de “Moral e Ética na Natureza”. O que dá valor à vida? As lições da Natureza. O segundo tema é “Aceitação como base para poder escolher a acção justa e necessária”.

Na primeira sessão falamos sobre o que consideramos importantes para a nossa orientação pessoal. Na segunda sessão o foco vai para a aceitação como principio básico para poder seguir o nosso próprio rumo e manter os nossos valores em situações difíceis.

Para orientar as conversas e ajudar na reflexão, trago textos oriundos do estoicismo e do taoismo. Fazemos ainda exercícios para ver como funcionam as ideias na prática.

Meditação, Reflexão e Caminhada


Estes retiros não se destinam a pessoas que querem escapar à confusão do dia-a-dia. O que se procura é oferecer espaço e sossego para re-encontrar o rumo, para que haja inspiração para o confronto com a confusão do dia-a-dia.

Em contacto com a Natureza, podemos lembrar-nos da força que trazemos em nós, da paz que procuramos, do amor que existe por detrás de tudo. Podemos lembrar-nos daquilo que realmente importa.

Não é preciso ter experiência avançada em meditação para poder participar. Basta ter vontade de te conhecer melhor, de te encontrar, de retomar as rédeas da tua vida.







(com reconhecimento e gratidão para Remco Liu-van Dorp)


Comentários

Mensagens populares deste blogue

Sobre o tempo, no Dia Fora do Tempo

A principal razão da cura é o amor

Sob o desígnio do Cavalo de Vento