Cada um de nós tem uma chave para a sabedoria universal dentro de si. Abrindo o coração, entrando no silêncio, podemos aceder ao conhecimento que o vento murmura.

terça-feira, 27 de abril de 2010

A magia do abraço

Eles estavam à espera, como se fosse à espera de um veredicto. Ela cabisbaixa, ele de mãos nos bolsos, hesitante. Tinham vindo para tentar saber o que se passava entre eles, entender porque não conseguiam mais chegar a um entendimento mútuo satisfatório e duradouro.As razões que levaram aos então namorados, de juntar os trapos e iniciar uma vida em conjunto, pareciam ter deixado de existir. Já não sabiam dizer ou explicar bem porque quiseram estar juntos.
No decorrer da relação, pareciam ter perdido de vista o que levou a querer estar juntos: para sentir uma complementaridade mútuo, segurança e apoio. Para crescer juntos e formar família.
Pareciam ter esquecido que nunca nada é por acaso, e que as nossas escolhas reflectam necessidades de crescimento. A escolha de um parceiro , em condições normais, serve mais do que os objectivos do ego, tal como ter um(a) esposo(a) para mostrar à sociedade (e interiormente) o seu valor, a segurança de um tecto por cima da cabeça, ou a satisfação dos desejos.
O parceiro com quem estamos a partilhar a nossa vida, serve-nos de espelho, um espelho da alma, que nos mostra (in)directamente quem nós somos e onde estamos no nosso desenvolvimento; vemos através dos olhos do outro as nossas forças e debilidades, as nossas alegrias e tristezas, o nosso amor e as nossas fraquezas. E é uma experiência mútua, que alimenta a alma e faz crescer aos dois na partilha.
Mas agora ela sentia-se só, mesmo na presença dele, mal compreendida, perdida. Ele até conseguiu sentir o desespero dela, mas a sua insegurança era de tal maneira grande, que em vez de a tocar e procurar contacto, chegava a ficar fora de si, como se fosso um outro, a gritar com ela.
Dois seres vulneráveis, ambos com necessidade de se aconchegar, de ser acompanhado, de se fortalecer... ambos com receio de mostrar a sua vulnerabilidade ao outro. Ela a esconder-se atrás das feridas que namoros anteriores tinham provocado nela, e que a fizeram sentir humilhada e abandonada.
Ele a esconder-se atrás da impotência perante uma mulher que receava um duplo significado em tudo o que ele fazia ou dizia, baseando-se na sua experiência anterior.
E ambos tremendamente sós.
Entre eles, um silêncio ensurdecedor.
As lágrimas começaram a brotar nos olhos dela, e ele não dava sinais de ver, empurrando a areia do chão com a ponta do sapato.
Virei-me para me afastar, para que se pudessem sentir a sós, para se pudessem abraçar.
O contacto físico, o abraço, pode fazer milagres: ao entregar-nos aos braços do nosso parceiro, podemos sentir que o outro está aí para o que der e vier.... e sentir que o outro nos aceita, mesmo em estado vulnerável e triste.
Mas o sentir não é o suficiente. A partir daí é preciso a manifestação: dizer o que pesa no coração, exprimir as dúvidas, viver os medos. Ao calar, calámos à nós. Em vez de evitar conflitos, estes agravam se. No silêncio, o afastamento é gradual mas dificilmente reversível. Calar o coração, evitar o confronto, é uma traição a nós próprios, porque deixamos de ter oportunidade de Ser, de criar as condições para uma relação plena e harmoniosa - e acaba por ser uma traição ao parceiro que mesmo querendo, não tem hipóteses justos para te compreender, ou mesmo para saber onde está nisto tudo.
Pode haver muitas razões para não querer falar, para se fechar em copos, para evitar o diálogo. Todas podem ser razões válidas para quem foge da abertura. E não há ser humano que nunca receou falar numa situação em que teria de mostrar as suas fraquezas. Mas se nos braços do nosso parceiro não encontramos a coragem de nos enfrentar, realmente podes perguntar-te se fazes bem estar ainda nessa relação.
É precisamente no abraço que pode começar a reconciliação - porque sentimos no corpo o que nos dá tanta saudade: a união sincera. E podemos sentir através do corpo a compaixão e aceitação do outro, o calor humano, o amor.
Ou a ausência do amor....
Quando me virei, vi que ele estava, apesar de uma mal desfarçada falta de jeito, honestamente a tentar abraçá-la. Vi também que ela ainda não conseguiu responder ao abraço, encolhida sobre si própria, de braços caídos.
Mais tarde soube, que tinham passado o dia a falar e aproximarem-se.
Faço votos que possam começar a sentir o que os una. Já demasiado tempo tiveram que lidar com o que os separa. Espero do fundo do coração que encontram a resposta, ao interrogarem-se sobre o compromisso que fizeram entre eles, quando se juntaram neste dia que agora parecia tão longínquo...

As lições que vamos encontrando

Tenho estado a descrever exemplos de lições da vida, que podemos tirar ao observar a Natureza. É uma maneira de aprender através da beleza. Parece ser a mais harmoniosa dos métodos - mas nem sempre é nós possível chegar à apreciação da beleza.
No nosso caminho, procuramos uma vida tranquila, equilibrada - procuramos a nossa capacidade de lidar com o sofrimento, a angústia, o medo, a insegurança, a inércia, a doença e a morte. Procuramos o nosso centro, em que podemos Ser, sem receios. Procuramos uma via de nos unirmos ao Universo, de nos sentirmos integrado no Todo.
Mas, caminhando, temos que reconhecer os véus que tapam a vista para nos podermos ver a nós tal e qual como somos. Véus que tapam a nossa visão sobre o Mundo, nas suas subtilidades, complexidades, multifacetada e colorida, cheio de oportunidades de desenvolvimento.
Muitas vezes as lições vêm ao nosso encontro vestidas de conflito. Quem é que não reconhece a situação em que encontramos alguém, precisamos de falar com alguém, e essa pessoa tira-nos do sério, só pela maneira de ser - empurrando-nos para uma atitude de defesa ou rejeição, fazendo com que dizemos ou fazemos coisas que só agravam a situação.
E..... na maioria das vezes, deixamos de observar a situação, entramos nos esquemas do Ego, e deixamos de ver a lição que a Vida nós propõe.
E quem não se viu a apontar o dedo ao outro, como provocador do mal-estar! Esquecendo completamente que é por termos desequilibrios emocionais dentro de nós próprios que ofereceram a possibilidade para o outro puxar o gatilho!
O que pode acontecer a seguir é que a nossa atenção entra num estado de defesa e de luta - um estado de profunda separação e dualidade. E se não tomamos consciência, afastamos cada vez mais do nosso objectivo de vida, que é a União.
Levei algum tempo até perceber que não é preciso defesa contra os que afectam ou procuram afectar o meu equilíbrio.
O que me fez muito bem, foi ir vendo o mecanismo que se acciona nestas situações, observando como se fosse a partir de uma terceira pessoa. Percebendo que as minhas emoções e reacções emocionais, dizem mais sobre mim do que sobre o outro. Aceitando que entrava no sofrimento por iniciativa minha, percebi que podia também ver o outro tal e qual como é, e que podia simplesmente aceitar isso mesmo! Não era necessário defesa - o que foi preciso era compaixão, aceitando o outro como é, não querendo alterar nada.
O que observei, foi que a minha mudança de atitude não só me deixava mais calma, com mais capacidade de entrar em diálogo, como deixava me mais intacto. O respeito que mostrava ao outro, deixando o ser, fluia, parecendo voltar como respeito para mim. A compaixão que mostrava - uma atenção genuina, voluntária, livre - parecia abrir uma outra fonte energética, e comecei a sentir que afinal tenho capacidade de lidar com as situações.
Isto não quer dizer que nunca mais sou tirado do sério, se não sou provocável. Significa somente que descobri que não preciso ser vítima das minhas reacções emocionais, e que posso encarar estes momentos difíceis, de conflito interior e exterior, como oportunidades de aprendizagem.
Estamos a cada momento no sítio certo para aprender o que tivemos que aprender. Encontramos as pessoas certas que nos trazem as lições que nos permitem avançar e crescer. Naturalmente falhamos muitos destes momentos. Mas a Vida é paciente e generosa: oferece nos as dificuldades tantas vezes quantas necessárias, até percebermos quem Somos.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

A Alma pura

O post " A Flor da Montanha" provocou um comentário que me tocou: A alma deve estar sempre pura para poder depurar o que vai ao seu encontro.
A alma pura, na maneira como vejo o Universo,  é um privilégio a que todos temos acesso. A nossa alma, parece me, sabe perfeitamente qual a sensação da pureza.  E mesmo por isso, anseia voltar a esse estado, assumir novamente a sua verdadeira natureza - o estado "puro".
É a saudade que volta e meio sentimos, que nos leva a procurar paz e harmonia. Penso que é a partir desta saudade que começa o nosso poder da Criação: tendo um conhecimento interior da harmonia primordial, procuramos criar harmonia à nossa volta. Criando os nossos filhos, cozinhando para a família e os amigos, fazendo um desenho, cantando uma canção, lavrando a terra na nossa horta, apoiando os que se sentem desamparados.
Se fossemos só alma, não havia problema. Mas a alma veio a Terra habitar um corpo, um cérebro, e o resultado somos nós: corpo, alma e espírito- soma, psyche e nous, segundo os Gregos antigos. E parece me que aí começa a confusão: quem sou Eu? Onde pertenço, onde vou?
Parece que estamos realmente num caminho - vindo de algures, procurando o caminho para algures. E a vida é a nossa Mestre.
Se quisermos aprender o que tivermos que aprender das lições que vão ao nosso encontro, na verdade precisamos de nos realizar que estas lições existem. É preciso ver, abrir os olhos, perceber que há aí um espelho que nos mostra quem somos e quem poderíamos ser - almas que fazem parte do Grande Mistério, parte integrante e constituinte do Universo.

Quer me parecer, que é preciso abrir a mente, perceber que somos muito mais do que contido nas fronteiras da pele.
Convém também não querer ser ninguém mais do que somos já: aceitar que estamos no lugar perfeito para poder aprender as lições que precisamos aprender - para poder seguir caminho!
A vontade de chegar algures, de ser alguém, o desejo de crescer, muitas vezes obscurece a visão do Momento. E aí não é por ter uma alma impura que não vêmos o que vai ao nosso encontro: é a nossa ilusão que nos cega.

A alma pura é um privilégio a que todos temos acesso. E todos dispomos da nossa livre vontade - para cobrir ou descobrir a pureza da nossa Alma.

Meditação Lua Cheia




Na próxima quarta~feira, dia 28 de Abril, a Lua Cheia convida-nos novamente à celebração da nossa ligação com o Universo. Enquanto o Sol estará em Touro, o mais "terreno" dos signos de Terra, a Lua Cheia estará em Scorpião - o signo ligado à Morte e Renascimento. O Touro em conjunto com o Scorpio: A Pedra dura sob influência da Água mole... e a sabedoria popular indica-nos a meditação mais adequada!
Um convite, então à regeneração: para deixar de oferecer resistência à mudança, e permitir que as nossas emoções mais duras e imóveis possam transformar, para podermos renascer em Harmonia com o Grande Mistério.


Meditação e Ceremónia de Lua Cheia
no
Cromeleque dos Almendres em Guadalupe, Évora
Quarta-feira, dia 28 de Abril , às 19.30 horas.



Estão todos bem-vindos!

É costume trazer uma oferenda ao sítio (um pau de incenso, uma flor, uma pedrinha, um pouco de água, ou o que sentir como adequado).
Uma contribuição para a cerimónia em si, fica à consideração dos participantes.

Se conheceres pessoas que possam estar interessadas em participar, por favor, encaminha a mensagem.
Paz e Saúde

Rietske

terça-feira, 20 de abril de 2010

Afinal há esperança (2)

E penso que há efectivamente esperança.
Os ensinamentos dos grandes mestres ensinam que a vida não nos acontece – mas que somos nós, através do nosso passado e das nossas necessidades de desenvolvimento ao nível da alma, que definimos o nosso próprio destino.
É uma grande responsabilidade. E simultaneamente, é uma grande liberdade: podemos ser quem gostaríamos de ser. As nossas próprias acções definem as voltas que a vida leva! As emoções e as dificuldades emocionais, servem de pistas para poder crescer, para poder cumprir o objectivo da nossa vida.
Talvez por isso, as almas gostam de se exprimir através da existência humana. Temos uma panóplia de emoções à nossa disposição – e estamos entre iguais, para partilhar, apoiar-nos mutuamente, e sentirmos em conjunto o prazer e a satisfação.
Não é de graça que recebemos a felicidade. Mas talvez a maior sofrimento que temos que passar, não seja o que os outros nos fazem. Talvez o mais difícil seja mesmo abrir mão do apego que nós temos em relação à nossa personalidade, a tendência de teimar em ficar o mesmo que sempre fomos, agarrando-nos a conceitos sobre nós próprios que foram formados no passado, sob influência de projecções de outras pessoas.
Talvez o mais difícil seja mesmo olhar para nós como um trabalho em progresso, e adequar a manifestação de nos mesmos, a quem realmente podemos ser. A coragem de nos transformarmos de tal maneira que a nossa verdadeira natureza se possa mostrar.
Ai muito lindo, oiço já os pensamentos mais cépticos. Mas isto significa o quê?
Para mim, significa que em primeiro lugar preciso de ver-me e ouvir-me para perceber como me manifesto. Que palavras utilizo? Porquê? Quais são as minhas motivações para dizer certas coisas nas conversas, nas reuniões, no educar dos meus filhos? Uso a palavra para me exprimir, ou uso a palavra para “manipular” a opinião do outro, para que obtenha um resultado visto positivo para mim?
Uso a palavra para me aproximar, tenho um discurso partindo do nós – ou falo a partir de uma separação, uma divisão assumida? Se a ultima opção for verdade ( e muitas vezes é, porque estamos a ser manipulados pelas nossas próprias segundas intenções, das quais muitas vezes não estamos concientes…) as minhas palavras não me apoiam na manifestação de quem realmente aspiro ser – um ser de Luz - mas apoiam o que receio ser – um ser da Sombra.
Ao observar como te exprimas, podes descobrir como o teu discurso te mantém no sítio do sofrimento.
E é por isso que digo que há esperança. Podemos alterar o nosso ponto de vista. Podemos alterar a maneira que falamos com os outros. Toda a gente sabe, se continuamente criticamos o nosso filho, ele vai acabar por pensar que efectivamente que não é capaz.
Porque então fazer isso connosco próprio? Se nos colocamos a nos próprios continuamente numa posição de vítima da situação, acabamos por culpar dos outros e por inferiorizar a nós.
Observando-me, posso descobrir como penso de mim e do mundo que me rodeia – e posso tomar o meu destino nas minhas mãos.

Observe os teus pensamentos: eles transformem-se se em palavras.
Observe as tuas palavras: elas transformem-se em acção.
Observe as tuas acções: elas transformem-se em hábitos.
Observe os teus hábitos: eles transformem-se em carácter.
Cuidado com o teu carácter – ele controle o teu destino. 
(Citação livremente adaptada de Paulo Coelho)

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Apesar de tudo, há esperança

Ela tinha acabada de desmaiar nos meus braços, e estávamos os quatro a  volta dela, que estava a descansar, recuperando os sentidos.
Tinha passado longos dias com dores de barriga, fruto de grandes  preocupações familiares. E quando sentiu, finalmente, que podia  entregar-se ao apoio incondicional dos seus amigos, o corpo tinha cedido.
Sem pensar nela própria, tinha estado a segurar emocionalmente os pais, os filhos, o ex-marido. Já há anos que era assim. E agora, as pessoas conseguiram complicar ainda mais uma situação que por si só já estava difícil. E ela perguntava-se: porque tem que ser assim?

Começamos a falar da vida, as lições que a nossa alma veio aprender neste mundo; e de como tudo o que acontece no nosso caminho, parece ser uma escolha da própria alma, para que serve de  aprendizagem.
Obviamente, gostaríamos de ver isso numa perspectiva essencialmente positiva para nós. Seria reconfortante, e na nossa cultura até podia ser  uma prova de sermos boas almas, se fosse tudo voluntariamente, de género: sofro das más acções dos outros, para aprender que não é assim, e para aprender como me sacrificar para os outros.
Mas cada vez mais vejo que a alma veio para se emendar a si própria, limando e aperfeiçoando dificuldades na sua própria estrutura, na sua  própria resposta ao mundo.
Estou a chamar dificuldades e não falhas, porque é importante não julgar, nem a nos próprios, sob pena de não sentirmos suficientemente fortes para a transformação. Na verdade, são dificuldades na nossa estrutura espiritual, que nos impedem sentir Unos e realizados. Indecisão, excesso
ou falta de auto-estima, arrogância, medo, desrespeito, falta de fé, sede de poder, you name it. Nada de humano nós é estranho.
Por isso temos de fazer o caminho de aprendizagem, não tanto voluntariamente, mas como parte obrigatório do currículo: no nosso caminho de volta à casa, de volta à Luz, temos de passar pelas dificuldades todas.
E depende de nós como lidamos, se ficamos teimosamente apegados às nossas reacções emocionais, ou se percebemos que podemos também optar pela transformação.
Chamam a isso, noutros lugares e culturas, Karma. Não no sentido de castigo – que os maus acontecimentos são para pagar dívidas às vítimas que fizemos em vidas passadas – mas no sentido destes acontecimentos servirem de oportunidades para chamar a nós a responsabilidade sobre o nosso estado de alma.
Uns exemplos: Se estou a ser confrontada com uma família ou parceiro, que não sobressai do vertente material, físico, posso deixar que isso limita o meu desenvolvimento – ou posso escolher o caminho que mais me realiza e satisfaz, independentemente de houver ou não aprovação.
Se tenho pais que não me mostram nenhum reconhecimento, que se resguardam na crítica, posso sentir pena de mim e dizer que isso me limita. Mas também posso ver esta situação como condição que me leva a reflectir, à procura do meu reconhecimento interior, procurar o meu valor intrínseco,
que não está dependente da aprovação ou valorização exterior.
Se estiver rodeada de gente que me utiliza como fonte de energia, descarregando os seus problemas sobre mim, sentindo-se melhor a minha custa, posso me perguntar o que faz com que eles pensam que me possam usar como se eu fosse descartável…o que isso disse sobre mim? Porque é que eles parecem ter algures a ideia, que não tenho dignidade? Será que não me manifesto como merecedor de respeito?

Todas as reflexões sobre o que já passamos, sobre onde nos encontramos agora, o sofrimento, os receios e as dúvidas a que estamos sujeitos, podem levar-nos a perceber que a nossa vida tem um objectivo precioso: aperfeiçoar-nos a nos próprios, através da interacção com os outros – e
talvez ainda mais importante do que isso: contribuir para que os outros possam se realizar, em harmonia connosco e com tudo que nos rodeia.
Todos juntos estamos no mesmo caminho de volta à Luz.

domingo, 11 de abril de 2010

A flor da montanha

Junto ao riacho que apareceu quando a neve se rendeu ao Sol, no meio de um tufo de erva seca, a conjugação de luz, calor, terra fértil e água a correr, fez nascer umas flores.

Pequenas e delicadas, mas incrivelmente decididas em florescer! Sem receio de abrir, com toda a fragilidade que lhes é própria, mesmo sabendo que ainda há noites tão frias que as possam gelar.

Rentes ao chão abrigam-se dos ventos entre os restos da vegetação da época passada.

Percebo que ao viver como Ser Humano podemos aprender lições valiosas – se estivermos dispostos a observar como funciona a Natureza.

Vivemos a vida toda divididos entre o nosso anseio de funcionar em Harmonia com tudo que nos rodeia, e uma necessidade de ser reconhecidos por nosso valor individual. Chegamos a considerar que a nossa individualidade é tão importante, que sentimos necessidade de nos defender perante o meio em que estamos inseridos. Mesmo quando percebemos que não estamos a conseguir o aproveitamento das oportunidades da vida, desculpamo-nos com a hostilidade dos outros, do meio, com a falta de reconhecimento, e de atenção do outro para connosco.

Escondemo-nos em reacções defensivas, e acabamos por não ver que a vida oferece-nos as adversidades próprias para que nos podemos enfrentar questões fundamentais. Agarrando-nos à ideia que precisamos que os outros vêm a nossa força, esquecemos de nos abrir para a mostrar.

Em comparação com as que se abriram, parece que nós não temos cor. Chegamos a criticar, invejar, julgar o outro – para não ter que ver que o que nos falta, é ter a coragem de florescer.

A beleza, a perfeição até, está na coragem de mostrar as nossas fragilidades, as cores delicadas do nosso coração. É verdade que ao abrir, mostramos como é fácil derrubar-nos… e corremos o risco de ser pisados. Parece que a força da vida está precisamente nisso.

Como podemos trilhar o nosso caminho, cumprir o objectivo da nossa vida, se não nos mostramos ao mundo? Seria como a semente da flor da montanha, à espera que toda a neve desaparece, para descobrir que as circunstâncias que permitiriam a sua floração, já passaram.
Podemos invejar as cores e a exuberância das flores tropicais, mas esta flor delicada mostra-nos que vale a pena acreditar em nós próprios. Mesmo sendo pequenos, assumindo a nossa fragilidade, a nossa presença é fundamental para a beleza do conjunto.

Sem essas florzinhas, a serra não seria o mesmo.

Água da Vida

Hoje o tempo está lindo. Mas o meu corpo está entorpecido; as tensões dos últimos dias, os encontros por vezes emocionais e difíceis, e a viagem de carro até aqui, sobrecarregaram os meus cervicais já por si frágeis. Sinto o pescoço, o crânio, os ombros e as costas… e pergunto-me se vou conseguir caminhar sem problemas.
Mas a esta hora de manhã, o sol já brilha – uma brisa fresca traz a promessa de um dia sem nuvens. Um dia óptimo para subir a serra. E respirando o ar límpido, ouvindo os meus filhos falar como vão descer as encostas de trenó, a dor começa a recuar. Vamos.
No início do caminho para cima, o sol ainda não derreteu o gelo da noite – por baixo dos nossos pés a água sólida vai estalando.
Quando chegamos ao Prado das Pozas, vemos o esplendor todo da neve que se estende pelo vale, cobrindo os cumes da serra que o rodeia.
Há sol, vento, neve… e pequenas manchas onde a neve derreteu, formando riachos que ouvimos e vemos passar por baixo da camada de neve.

De repente, a beleza da Natureza atinge o meu coração como se fosse um raio que abre a mente, o corpo, a alma. De repente, sinto tudo junto ao mesmo tempo – a terra sólida que me sustenta, a neve cristalina por baixo dos pés, a frescura limpa do ar a entrar nos pulmões, a luz intensa do sol, o som da água que corre, o canto da cotovia a voar. Sinto tudo ao mesmo tempo, por fora e por dentro, um momento sem início e sem fim.
Ajoelho-me para beber da água que passa. Parece que é a primeira vez que bebo água – admiro com surpresa a força vital que me é transmitida.
O meu corpo todo é convidado a abrir-se para que possa aprender com a água a fluir… Aprender como transformar com a energia da Luz, deixando a imobilidade e frieza das ideias formadas, dos conceitos fixos, para começar a fluir… Não ficando mais presa aos obstáculos e pedras no caminho, mas reconhecer dificuldades, aceitar que existem, para poder fluir a volta, flexível, transmutando continuamente. Aprender com a água que a força da fluidez é imparável; pode estar escondida por baixo das camadas mais sólidas, mas acaba sempre por surgir, num fluxo sempre crescente enquanto houver matéria mais dura para transformar.
Os meus sentidos são convidados, para reconhecer os reflexos da Luz na turbulência do riacho, cada gota de água parece irradiar o seu próprio raio de sol – um convite para aprender que também nós recebemos exactamente o raio da Luz que nós é destinado, para servir de espelho desta Luz para tudo que nos rodeia, cada um irradiando conforme É, todos juntos o rio da Luz Universal.

As minhas células todas recebem o convite de se deixar impregnar pela beleza e perfeição da água… e de perceber o significado da entrega à nossa verdadeira natureza. A água bate contra a pedra, procura uma solução para poder fluir; se não pode contornar o obstáculo, acumula força para abrir uma saída, para que possa existir respeitando a sua natureza fluida. De igual modo, não adianta negar a nossa própria natureza: não respeitar quem Somos, é como tentar barrar o caminho à água, pensar que se possa dominar a Natureza….

Respiro fundo, sinto o Tudo a passar pelo corpo: a terra sólida que me sustenta, a neve cristalina por baixo dos pés, a frescura limpa do ar a entrar nos pulmões, a luz intensa do sol, o murmurar da água que corre, o canto da cotovia a voar, os risos da minha família, sons de prazer e divertimento. Sinto tudo ao mesmo tempo, por fora e por dentro, um momento sem início e sem fim.
Quantas vezes, na meditação, imaginei este momento? É aqui e agora, que percebo mais uma vez que a Terra é verdadeiramente como a nossa Mãe, nutrindo, abraçando, fazendo sentir que nunca estaremos sós ou desamparados.
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