Cada um de nós tem uma chave para a sabedoria universal dentro de si. Abrindo o coração, entrando no silêncio, podemos aceder ao conhecimento que o vento murmura.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Não tenhas expectativas sobre o caminho a seguir

Talvez é mesmo verdade que todos os caminhos espirituais começam com uma experiência mística.
Obviamente podemos desenvolver-nos espiritualmente sem ter tido propriamente uma iniciação mística, mas parece-me que é preciso uma experiência profunda para poder passar uma barreira importante: em vez de acreditar que existe uma força maior que deu origem a tudo - Spirit, ou Deus (ou a Fonte, o Criador, ou como quiser chamar a Força Primordial), passamos a saber que é assim.
A barreira entre os dois estados da alma é fininha, no entanto, há uma diferença abismal entre o acreditar e o saber.
Enquanto acreditamos numa força maior, projectamos a Divindade algures fora de nós. Como algo que desconhecemos, mas que acreditamos que deve existir. Algo que aspiramos conhecer, que gostariamos de ter ao nosso lado. De onde vemos emanar a nossa realização, a nossa salvação, a libertação, a iluminação. A promessa de Compaixão, Bondade e Amor contida nesse entidade,  faz com que nos esforçamos para merecer, faz com que queremos crescer, desenvolver, aprender. Somos estimulados e inspirados para fazer o caminho. Em última instância, rogamos para que este algo fora de nós,  nos protege, ajude, acolhe.
Para mim, esta perspectiva mudou completamente, ao ter uma experiência que chamamos mística, mas que também poderia chamar um encontro com o Mundo Invisível. Como consequência de um grave problema de saúde, foi me permitido assistir à saída (do meu corpo) da minha alma, que viajou para o "Além" e deu entrada no "Céu" - onde me foi transmitida que ainda não era o meu tempo e que ainda havia trabalho a fazer na Terra.
Foi uma viagem que os publicitários da vida moderna sem dúvida gostariam de vender como "a Experiência Total" - uma passagem pelas emoções todas, uma ascensão em velocidade vertiginosa, seguida de uma Paz e a Tranquilidade profunda...
Não é aqui lugar para descrever os pormenores, mas o mais importante que descobri foi que a "Fonte de Tudo Que É" não é algo fora de mim e não existe além de mim - existe através do meu Ser!

Já foi há alguns anos atrás, mas ainda estou no processo de perceber o alcance da descoberta que fiz naquela altura. Passei de acreditar para saber - passei a perceber no fundo da alma que sou um Ser Humano, uma criação à imagem do Criador - e por isso com todos os apetrechos e toda a força do Próprio... Começei a ver que não estou separada da Fonte da Luz - mas que faço parto dela, estou em união com Ela! Vi que a necessidade de fazer um caminho espiritual foi uma ilusão criada, que já SOMOS. Não é preciso vir a ser alguém, já nascemos sendo alguém: nós próprios.  E todos nós somos iguais nisso! Todas as almas que incarnam como Ser Humano partilham a mesma tarefa: descobrir em si próprio quem já são, descobrir a sua condição divina.
Como disse, ainda estou no processo de perceber o alcance da descoberta. O meu Ego ainda tem dificuldade em abrir mão das formatações que deram forma e segurançã à sua existência, de tão habituado estava a agir e reagir à base das concepções. Talvez a mais importante convenção de todas é a que somos supostos sentirmos pequenos...
Somos ensinados como devemos comportar, reagir, falar. Somos ensinados como pensar e como rejeitar ideias que não têm cabimento no senso comum. Somos castigados para falar de coisas que vêmos, que ouvimos, mas que o cerebro lógico e a ciência não conseguem explicar. O sistema convence-nos que precisamos de estudar e ter um diploma para podermos ser reconhecidos. Somos indoctrinados que precisamos de aprender, que não sabemos nada,  treinados para não assumir a nossa própria responsabilidade e para seguir as regras ditadas por alguém acreditado. Não podemos publicar ideias próprias sem referir a alguém que já publicou antes de nós; não podemos falar com Deus, é preciso um intermediário, o padre, que nos transmite a vontade de Deus. Há fórmulas, métodos, teorias, sistemas - para rezar, curar, pôr as pedras, decorar a casa, cozinhar, ser feliz, evoluir. Tudo garantido por nomes sonantes, ouvidos por muitos...

Neste momento, sinto que tudo isso existe para dar a ilusão de segurança. Pertencer a um grupo, um movimento, seguindo um método, ter um "mestre que seguimos", dá a ilusão de conforto, de não estar sozinho. Abafa o medo de não ser capaz, de ser insuficiente. No entanto, fazendo as contas, é um sistema que  sublinha a insigificância individual, que aumenta a distância entre o Ser Humano e a Criação, que acentua a separação. Conhecemos os lugares-comuns associados: É preciso muito trabalho - o caminho é longo - é preciso sofrer - vamos subindo de degrau em degrau - é uma tarefa de uma vida... Parece que somos peritos em criar expectativas sobre tudo o que há ainda para fazer, ver, sentir, aprender - de tal modo que cegamos os nossos sentidos para o que somos já.
Esta cultura forma em si uma crença, que te dificulta viver plenamente no Agora, porque occulta que tudo o que há para saber e alcançar, já existe em ti. Viver no Agora é ter a maior experiência divina que possa haver, através da própria Vida: tal como a Fonte da Criação existe através de ti, existe por igual em tudo que É e tudo que encontras - nas pessoas que te rodeiam, nas flores que dão côr aos campos e à cidade, no arco-iris, na chuva e no sol, nas aves e nas árvores, no vento e na tempestada; no chamamento da rã, no riso da criança, no cantar nas tabernas, no cumprimento entre amigos: Olá, bons olhos te vejam, está tudo bem contigo?

Tudo o que há para saber já existe em ti. Sendo Ser Humano, dispões já desde nascença de todos os meios para ver e entender. Não precisas de evoluir para ser alguém, já ÉS. Aceita-te como és,
porque tu fazes parte integrante e indisociavel da Criação!

A mensagem que me foi transmitida foi clara, embora difícil de gerir. É uma mensagem que penso ser universal: todos nós somos seres divinos. Significa ter poder -  o direito de decidir e viver a nossa vida como queremos, mas não significa ter poder ou influência sobre a vida de outros, porque assumindo a nossa condição divina, temos que aceitar a condição divina de cada um, em igualdade connosco. Significa perceber que merecemos tanto respeito como devemos aos outros. Significa que merecemos ser amados, na mesma medida que amamos aos outros. Significa, em sumo, que em essência podemos ser livres e feliz, desde que aceitamos quem somos.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

poder xamânico

Uma rapariga tinha vindo para uma sessão de sons, para ver se podia resolver o seu estado de cansaço e desorientação, que já durara mais do que um ano.
Ela acabou por contar que tinha participado numa cerimónia xamânica de ayahuasco – uma cerimónia de origem sul-americana, em que é tomada uma bebida que provoca alucinações. É usada para poder ver o mundo “invisível”, para ter acesso a visões, e que normalmente é usada sob orientação de um xamã.
É uma via iniciática que traz consigo riscos significativos, que demasiadas vezes são subestimados pelas pessoas que procuram este tipo de desenvolvimento espiritual.
A energia envolvida na cerimónia é controlada pelo xamã.  A pessoa que bebe a mistura de ayahuasco, abre o seu sistema energético e deixa-se levar pelas visões, pela experiência extra-sensorial espectacular. Uma experiência de profunda união com o Universo.... Entretanto, está completamente aberta, deixando a porta aberta para o xamã entrar e fazer uma ligação…deixando escondida dentro do próprio sistema da pessoa, uma energia que ele pode accionar à distância.
Após a experiência, e já de volta para a sua vida normal, a pessoa pode começar a sentir que o xamã continua exercer influência, sugando a sua energia quando quiser, criando uma espécie de dependência.

O ponto fulcral nisso tudo é a auto-confiança e a força da pessoa que se submete à cerimónia. É extremamente fácil pretender ter capacidade suficiente para enfrentar a energia invocado pela ayahuasco. Muitas vezes o xamã (ou guru, ou líder espiritual, ou qualquer pessoa que se assuma como iniciado) sabe trabalhar muito bem sobre alguém que anseia por uma experiência, mas que duvida da sua capacidade de a atingir por força própria. Tendo a auto-estima algo baixo, uma pessoa é facilmente convencida que só precisa de se deixar guiar, que  só precisa de iniciação…
Penso que sabemos todos como isso funciona - quem é que não se deixou já, nem que seja uma vez só, iludir por alguém mais forte, alguém com mais conhecimentos, mais experiência?

A rapariga estava cansada de se sentir manipulada por outros com quem só queria cortar. Não era só o xamã sul-americano, haviam outros que tinham conseguido controlo sobre uma parte da sua energia.
Agora só a vontade própria dela podia dar a volta à situação: só ela podia retomar a sua independência.

Na sua condição de Criação Divina, o Ser Humano não é suposto se sujeitar a dependências ou manipulações. O Ser Humano, no seu caminho espiritual, pode ir descobrindo a sua força criativa, a sua própria maneira de criar a sua felicidade. Nisso, somos todos iguais - e deriva da liberdade e independência de cada um, a felicidade de cada um. Repara - não se trata só da nossa liberdade individual, trata-se também de respeitar e fomentar a liberdade dos outros. Igualdade só existe se é para todos! É nesse respeito, essa vontade de ver TODOS os seres no seu esplendor original e único, que encontramos o Amor todo-abangente!
Cada um TEM acesso à Fonte da Energia Universal - e quem precisar sugar energia dos outros, ainda não percebe que também É uma Criação Divina, que também tem toda a força que precisa à disposição, directamente da Fonte. Por outro lado, quem ainda admite que outros lhe limitam a liberdade, também não aceita quem É. Em ambas as posições (a de quem se julga inferior e com menos valor, bem como a de quem se auto-proclama Guia) a pessoa se julga por si só insuficiente ou, no limite, incapaz de assumir a sua condição divina!
Enquanto houver manipulação, enquanto houver quem se sujeita à dependência, o pensamento humano, o seu Poder Criativo, estará sob influência do medo.
Tenho por certo que o medo é a base errada para a Criação de um Mundo Melhor - e não é isso que todos queremos?

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Férias

O período de férias está a chegar ao fim. Espero que todos conseguiram descansar, carregar baterias, pôr as ideias em ordem, entrar no seu silêncio.... para poder enfrentar os desafios da vida do dia-a-dia com renovada coragem e esperança!

Este ano fizemos um passeio muito bonito - subimos ao pique do Almanzor. A paisagem feita de blocos de granito ofereceu vistas espectaculares. As pedras, empuradas para as alturas pelas forças interiores da Terra, estão expostas durante muitos milénios a condições metereológicas extremas: o calor do verão, o gelo do inverno, ventos, chuva, neve..... Elas vão formando e mostrando o seu carácter próprio - e podemos reconhecer nelas verdadeiramente os Ancientes  (os Anciãos), os Stone People (o Povo das Pedras).
Entre elas, somos tomados por uma sensação de mudançã contínua, sem fim, sem início. Ao mesmo tempo parece que aí nada nunca haverá de mudar, que sempre foi assim e sempre será.
Uma grandiosidade natural, em que o ser humano é um mero figurante - e de repente parecem tão insignificantes as vicissitudes da vida moderna: o culto do corpo, a falta de tempo, as ambições, as modas.... o nosso ego (interligado como está com o corpo, físico e efémero) quer tudo já, nesta vida ainda se fosse possível!
Entre os Ancientes encontramos facetas da vida que o ego tenda a descartar: a aceitação das circunstâncias, sem perder a firmeza suave; a beleza de poder Ser, tal e qual como criado, sem necessidade de mudar - a mudança terá lugar pelas circunstâncias. Ancient Ones: honro-vos e respeito-vos, e agradeço-vos pela oportunidade de poder estar convosco.

23 de Agosto 2010 - Almanzor, Sierra de Gredos
Foi um destes passeios que deixa marca, pela distância, pela altura, pela duração, pela dureza. Ninguém desistiu, nem sequer quando a caminhada parecia mais escalada. Cada um foi andando pelos próprios pés,  todos juntos para poderem oferecer a mão ao outro num momento mais inseguro ou instável.Todos se apoiaram mutuamente para poder chegar ao fim - e foi graças ao apoio mútuo que conseguimos também fazer os últimos kilómetros de volta ao carro.
No dia seguinte, ao revêr o percurso, percebemos que a distância percorrida era bastante mais do que o planeado... mas ainda bem que decidimos avançar. Foi óptimo.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

A auto-estima - e a falta dela

Muitas vezes ouvimos dizer que estamos numa altura de mudança profunda - que a energia da Terra Mãe está a mudar, que grandes alterações estão prestes a acontecer.
Muitos de nós sentimos que é urgente encontrar o nosso caminho, a nossa maneira de viver e ser feliz, a nossa missão.
Nas sessões individuais que acompanho, encontro muitas pessoas que sabem no fundo do seu ser que é agora a altura de se curar e optar por uma vida feliz. Mas existe ainda tanta desconfiança em relação às capacidades pessoais, ou mesmo em relação à quem são. Há quem tenha dúvidas se dispõem das capacidades necessárias para poder fazer o que no fundo do coração querem. Há quem  não acredita que aquilo que sabem fazer bem, o que gostam de fazer, poderia ser um contributo valioso para a sociedade.



Nas sessões que acompanhamos (neste momento trabalho em conjunto com uma colega, uma "irmã da alma") procuramos estimular que cada um possa entender que traz dentro de si a capacidade de criação a partir do Amor e Bondade.
Cada um tem o direito de se sentir bem aqui na Terra, feliz consigo próprio. Cada Ser Humano tem o direito de poder agir a partir da sua criação de amor e bondade. Assim pode encontrar a o seu equilíbrio, e brilhar a partir da sua harmonia interior.
Se existe dentro de uma pessoa compaixão para com quem é (compaixão com o seu próprio feitio, compaixão com a sua dor, tristeza, os seus bloqueios), uma auto-cura pode ter lugar.
A auto-compaixão torna-se especialmente difícil se falamos da relação entre os aspectos masculinos e femininos dentro de uma pessoa. P.ex: quando alguém tem traumas emocionais, estas memórias tendem a provocar emoções de rejeição em relação a comportamentos ou situações semelhantes - e se nas traumas estiver envolvida a figura da mãe ou do pai, o casamento interior entre os aspectos femininos e masculinos pode ter feridas abertas.
Por outro lado, a compaixão pode oferecer uma segurança e conforto interior semelhante a um casamento feliz - ambas as partes podem desenvolver-se em liberdade e harmonia, fazendo com que a pessoa se sente equilibrada e em paz.
Se houver um fluxo de paz em harmonia interior, a vida no mundo exterior  também fluirá em harmonia.
Gosto imenso de ver os olhos brilhantes das pessoas, após o acompanhamento. Fé, esperança e vontade de fazer, a confiança renovada que são capazes. É um privilégio poder ver como pessoas se sentem bem consigo próprio, sentindo o seu valor, de querendo agir em conformidade.
É o nosso desejo que cada um possa sentir que vale a pena viver, que cada um a volta do Mundo possa ser consciente do seu valor, capaz de se curar, viver em harmonia consigo, e contribuindo assim para o bem-estar de todos. 

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Chega de sofrer em silêncio


Nas últimas semanas tenho estado a trabalhar num projecto sobre a violência doméstica. Embora ambos os sexos possam ser vítimas ou agressores na violência doméstica, este projecto visa incentivar as mulheres que são vítimas de maus tratos físicos ou psicológicos, a erguer-se, perceber que este destino não é justo para ninguém, e que é possível saír da situação.
Na fase da preparação, encontrei muitas situações diferentes, de todas as classes sociais, de todas as faixas etárias. E vi que há muitas, mesmo muitas pessoas a viver a sua dor completamente sozinhas, com medo de falar, com vergonha de si própria, com a auto-estima de tal maneira ferida que nem sequer conseguem imaginar-se a viver fora da relação com o agressor.

Há uns dias atrás veio uma mulher ainda jovem, à procura de acompanhamento para aprender lidar com a sua femininidade. Durante o processo, ela começou a abrir-se, e contou acerca das suas experiências enquanto criança, quando um homem mais velha abusou dela. E agora, anos mais tarde, ainda estava a tentar encontrar paz consigo próprio, aceitar o seu corpo em toda a sua beleza. Ela ainda estava a procurar sentir-se segura sendo mulher.

Há imensas mulheres que intimamente estão nesta luta, e que desenvolvem estratégias para não sentir a dor do passado. Guardada no fundo do seu coração, a dor parece-lhes demasiada para poder partilhar. Querendo ser fortes, elas chegam a não lidar com o seu sofrimento.

Mas os tempos pedem para que todos nós encaram a nossa cura. As mulheres são as mães da próxima geração. Futuros homens e mulheres para quem desejamos que sejam capazes de diálogo, que tenham relações harmoniosas, sem dor, sem manipulação, cheias de amor, em que ambos os parceiros são vistos, respeitados, acarinhados. Os tempos pedem, que as mães curam as suas feridas emocionais, para que não passam involuntariamente para os seus filhos, padrões de pensamento e comportamento baseadas na dor escondida. Mesmo quando não se fala sobre a dor, os filhos vêm e sentem o sofrimento escondido - da mesma maneira que todos nós, em criança, experimentamos as consequências das feridas e traumas emocionais dos nossos pais.

Estamos com vontade de fazer um workshop, muito provavelmente no dia 14 de Agosto (sábado), para pessoas que querem contactar com a sua femininidade, curar a sua dor e revolta do passado, que querem voltar a sentir-se bem no seu corpo. Propomos um workshop intensivo - uma tarde e noite de partilha, trabalho corporal e emocional. É a nossa intenção focar: a auto-estima; o tema da (auto)vitimização; as relações mulher/homem; a auto-cura.
Não será um workshop exclusivamente para mulheres maltratadas, mas destina-se a todos que querem curar em si o equilíbrio interior entre o masculino e o feminino.
Todo o trabalho que se faça, toda a cura que se consegue, não terá só efeito para quem participa, mas igualmente para os seus pais, filhos, família.

Já há duas mulheres que se ofereceram de preparar o workshop, mas mesmo assim quero convidar a todos que gostariam de participar, para me telefonar ou mandar um mail, para sabermos se podemos construir um grupo.
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