Voltar ao amor à Vida


Dizemos: a Natureza é a nossa mãe. Nascemos dela. O corpo dela, a Terra, acolhe, alimenta e ensina-nos. 
Ela ensina-nos sobre a vida: quando reflectimos sobre a passagem do tempo, lembramos como tudo está sempre em mudança, ciclo após ciclo.

Ensina-nos interdependência: quando observamos os animais no seu ambiente natural, comentamos de passagem como tudo está ligado, como todos os seres estão dependentes de outros, entendemos o conceito de ecossistema e habitat. São lições sobre colaboração, cooperação, convivência - mas também sobre a inevitabilidade da morte. Para uns organismos poderem viver, outros organismos dão a vida. 

Ela ensina-nos beleza e paz: quando passeamos no campo, na floresta ou à beira-mar, observamos a beleza que sentimos no corpo sem pressa, no canto dos pássaros, no vento que passa pelas folhas das árvores. Por momentos, deixamo-nos tocar pela harmonia natural de flora, fauna, solos e clima.

Mas é como se não tivesse nada a ver connosco, como se acontecesse apenas lá fora, não no nosso próprio habitat. Parece que vivemos num mundo à parte, a partir do qual fazemos excursões para experienciar a natureza.

Saudade da harmonia natural

Nasci num país altamente industrializado, que tem uma história de séculos de tentar controlar a natureza. Se os próprios neerlandeses não tivessem tido a intervenção sobre o seu ambiente natural, grande parte do país seria ainda pantanoso e inabitável. Uma parte do país estaria por baixo da água, na verdade. Sinto por isso um verdadeiro chamamento para entender a natureza. É como se tivesse saudade de algo há muito esquecido.

Descobri que é uma saudade que surge em imensa gente. Descobri também que é um sentimento difícil de resolver. Por um lado, faz bem voltar ao silêncio, entregar-nos à imensidão de harmonia que nos envolve. Por outro lado, quando começamos a pensar no nosso percurso pessoal, há a sensação que temos que proteger algo, assegurar o futuro, emendar o passado. Sente-se que está à espreita, talvez, um desconforto ao sentir a mesma imensidão de uma natureza que não se deixa domar.

Um paradoxo a resolver

Efectivamente, como humanidade, teremos de enfrentar o conflito. Se desejamos assegurar o futuro, sentimos necessidade de uma certa ordem com que podemos contar. Precisamos da sensação de estar no caminho certo, de fazer o bem, de sentir que temos controlo sobre a nossa vida. Há um desejo natural de estabilidade.

No entanto, se desejamos respeitar a natureza na sua totalidade, teremos que aceitar também a imprevisibilidade, de estarmos sujeitos à circunstâncias. A Natureza tem uma tendência natural para o caos – ou assim nos parece.

E o ser humano fez tudo que pude para controlar o caos e a desordem. A ideia era que podia ser possível viver sem medo de não ter alimento, abrigo, sustento. Ao longo do processo, acabamos por prejudicar e mesmo destruir, a mesma harmonia que garantia o sustento.

O que podemos fazer?

Actualmente vive-se um clima de impotência - vemos a degradação mas não sentimos capazes de corrigir o rumo. Como começar? Como chegar a uma alternativa?

A resposta já foi dada há muito - no Talmud encontramos a frase: "Não te cabe a ti concluir a obra, mas também não tens a liberdade de te desistir dela." Outra frase, mais conhecida ainda, vem de Mahatma Ghandi: "Seja a mudança que desejas ver no mundo." Outros sábios, com palavras diferentes, disseram o mesmo: cuida de ti para poderes cuidar do outro.

Ou seja: se te aflige ver como resultaram as escolhas da humanidade, empenha-te em fazer escolhas diferentes para a tua vida pessoal. Mudando pequenos gestos, talvez mesmo um estilo de vida. Mas acima de tudo: cabe a nós investigar o que está por detrás das escolhas que fazemos.


Deixa-te inspirar pelo amor à Vida

É hora de sentir a vida como algo alegre e positivo, uma dádiva que está à disposição para fazer com ela o que sentes que faz sentido. Que sentido, é algo para descobrirmos ao longo do caminho. Somos natureza, sabemos perfeitamente que a natureza é cíclica. Verão torna outono, ao dia segue a noite - à vida segue a morte, que por sua vez permite a vida. A aceitação desta inevitabilidade é duro e difícil - em teoria sabemos, mas quando toca a nos, receamos a mesma verdade. Tenho a impressão que a necessidade de estabilidade e segurança não surge pelo amor à vida, mas antes pelo medo da morte, de não existir mais. 

Por isso, urge voltar ao amor à Vida, assim mesmo, com V maiúsculo. A natureza que nos rodeia pode ser a porta que nos leva de volta. Ela oferece-nos ensinamentos sobre os verdadeiros valores da vida. Se conseguimos ver, com toda a curiosidade e interesse genuíno, como a natureza se apresenta perante os nossos olhos, talvez podemos começar a sentir que fazemos parte desta mesma natureza. 

Se conseguimos ultrapassar a ideia que a natureza é um sítio onde vamos para sentirmos melhor, podemos começar a sentir que pertencemos a Ela. Que há um lugar para nós, seres humanos, em que nos é possível a segurança que tanto ansiamos. Abraçando na nossa atenção tudo que ocorre à nossa volta, podemos voltar a fazer parte de uma harmonia que pensamos perdida. 


 (texto de preparação para o retiro Etica Natural)

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