Cada um de nós tem uma chave para a sabedoria universal dentro de si. Abrindo o coração, entrando no silêncio, podemos aceder ao conhecimento que o vento murmura.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Rumo ao chão sagrado (IV): Os lugares budistas como fontes da sabedoria espiritual

As rotas e percursos que tiveram lugar em séculos antigos conferiram não apenas atenção aos sítios e aos seus monumentos, que mostravam o que de especial ali sucedera, entre santuários e templos, mas também descreviam os vihāra, ou mosteiros, então ali fundados e que, apesar dos séculos, se mantiveram. Qual o seu papel e importância no contexto do Budismo antigo?

A existência de Gautama Buda veio a ser assinalada por gestos e acções significativas, mas, sobretudo, pelas suas palavras, que se constituíram como ensinamento supremo a que podia almejar quem estivesse decidido a seguir uma vida de aperfeiçoamento espiritual, e que resultaram assim no conjunto de Sutras (em Pāli: Suttas) que eram uma das bases canónicas do emergente Budismo.
Após a Iluminação, foi em Sarnath que se diz que Siddhārta proferiu os seus primeiros discursos, e, continuando deambulações, assim ia permanecendo noutras cidades, prosseguindo as suas prédicas e exposição de ideias, como sucedeu em Śrāvastī, onde se veio a fundar o Jetāvana, famoso grande mosteiro, ou em Varanasi-Benares, e, ainda, em
Vaiśālī, onde se diz que também fez a primeira ordenação de mulheres monjas.
 
Monges em oração no Gandhakuti, ou Aposentos de Buda
no Jetāvana (lugar da antiga Śrāvastī)

Faxian concedeu, na sua Descrição, grandes atenções ao Mosteiro Jetāvana em Śrāvastī, sendo outrora capital do Reino de Kosala, mas também entretanto reduzida a ruínas, e na qual o mesmo mosteiro constituía um dos principais centros de sabedoria, cujos vestígios continuam de qualquer modo a ser destino de veneração. Desde logo, o respeito exprimia-se por se estar perante um lugar que o Gautama Buda habitara duradouramente, e, salientava o monge: “mais do que em qualquer outro sítio” e um dos principais da sua pregação. Faxian descreveu também a quantidade de estátuas ali existentes e que reforçavam o sentido de uma presença perene.

Localizada estrategicamente entre diversos territórios,Śrāvastī (Savatthi em Páli) estava no cruzamento de vias que não apenas partiam de várias regiões da Índia, como também das que ligavam a Ásia interior ao sul do subcontinente. Estava também no cruzamento cultural entre o Hinduísmo e o Budismo, combinando legados, tendo sido mencionada em poemas épicos mais antigos, como o Mahābhārata e o Rāmayāna. No séc. V, mantinha-se ali a própria rivalidade entre os ancestrais grupos brâmanes e os “novos” grupos budistas; a sabedoria de uns e outros, porém, por vezes combinava-se numa síntese conceptual, sendo o Jetāvana vihāra tão só o mais destacado dos estabelecimentos religiosos e centro de ensinamento espiritual dos muitos outros também ali existentes, cenário de tais convergências.

Em Kushinagari, outro dos grandes Aṣṭamahācaitya, evocava-se a morte de Buda e a entrada no nirvāna, guardando-se uma grande imagem de Buda deitado no Templo
Mahāparinirvāa. Era esse o tema magno de um texto que veio a ser referencial, precisamente intitulado: Mahāparinirvāa Sūtra, ainda que em grande parte fosse constituído pelo encómio a Ananda, primo de Siddhārta e também figura fundadora do Budismo. Correspondendo à Sutra XVI, compilada inicialmente no Dīghanikāya, será o maior dos escritos do antigo Cânone Pāli, vindo especialmente a destacar-se na corrente Theravāda, que teria, também no séc. V, como principal comentador a figura de Buddhagosa, com escola no Śrī Lakā (Ceilão).
 
Estátua de Buddha parinibbana ou parinirvana, no Santuário Mahaparinirvana
(Kushinagar, Uttar Pradesh, União Indiana)

Não só nos momentos de vida de Gautama, como no seu nirvāna, o significado particular do Budismo resultava portanto em concretizações que conheciam a forma de textos, associando-se ao sentido das palavras. Em Samkasya, enquanto lugar a acrescentar também à enumeração dos Aṣṭamahācaitya, foi onde Buda ascendeu ao Paraíso de Trayastrimsas, sem que os seus discípulos se apercebessem da sua ausência, e, de novo, para discorrer sobre o Abhidharma às entidades espirituais que aí habitavam, indo depois ao Paraíso de Tushita, onde os bodhisattva permaneciam e onde estava a sua mãe, transmitindo-lhe também ensinamentos.
Todos estes sítios, fosse em dimensões celestes ou em lugares terrenos depois monumentalizados em expressão devocional, distinguiam-se afinal por serem os sítios onde haviam emergido as palavras de Buda, e que se haveriam de conservar nos documentos que os mosteiros guardaram ao seu cuidado.

Eram particularmente os mosteiros também centros de sabedoria e de conhecimento, e depositários das palavras de Buda que haviam sido passadas à forma escrita. O maior objectivo dos viajantes, como Faxian, era levar cópias desses escritos para as terras de origem, missão a que dedicavam todas as suas capacidades.

Em Rājagiha (Rajagaha em Pāli, e actual Rajgir, distante a sul no Estado de Bihar), situava-se o sítio identificado muitas vezes como a Terra Pura de Buda, em ideia especialmente difundida pela corrente Mahāyāna. Aí permanecia Buda, demorada e frequentemente. Na área de Rajgir subsistiu um santuário simples no topo do Monte dos Abutres, mantendo-se como um ponto de peregrinação, tendo sido nesse outro lugar que, pouco antes da sua derradeira deslocação a Kushinagari, Gautama Buda ensinou aquilo que viria a ser conhecido como a Sutra do Lotus e o Discurso da Perfeição do Sabedoria (ou Prajnaparamita).
 
Vista do Monte dos Abutres, ou Grdhrakuta e seu santuário
(Rajgir, Estado de Bihar, União Indiana)

Foi em Rājagiha, logo após a morte de Gautama, que houve o célebre Primeiro Concílio durante o qual as palavras de Buda foram repetidas por todos os discípulos, dizendo-se que haviam sido totalmente memorizadas por cada um.
Diz-se que se reuniram então 500 discípulos, ou arhats que, na Caverna de Srataparna, das várias que existiam na região, procederam assim à Sangiti, ou Recitação, cabendo a Ananda o protagonismo de transmitir muitos dos discursos de Buda Passados seguidamente à forma escrita, surgia a primeira compilação de Sutras (Sutta Pitaka), originando o Cânone Pāli. O Concílio foi ainda dirigido por outra figura santa, Mahakassapa, homónimo do antecessor de Gautama, tradicionalmente representado com a pele dourada, pois, como também era contado, Kassapa Buddha ter-lhe-ia aparecido e tocado, e permanecera esse dourado como uma dádiva, ao mesmo tempo que exprimia a sua grande espiritualidade.

Um Segundo Concílio seguir-se-ia anos depois em Vaiśālī (onde Ananda faleceu, referindo Faxian que era precisamente “sua vontade que o seu parinirvana sucedesse ali”) e, desta vez, reunindo-se 700 participantes, incluindo monges que pretendiam chegar ao entendimento do que seria a sua organização colectiva, a Sagha.
Resultou, portanto, deste Segundo Concílio a elaboração das regras para as comunidades no designado Vinayāpiaka. À componente fundamental das Sutras compiladas no primeiro concílio, e que se juntaram os escritos sobre o  Abhidharma adicionaram-se assim as regras do Vinayāpiaka, ou sejam as Mahāsāghika, compondo finalmente o que seria depois conhecido como Tripiaka, ou “Os Três Cestos” da sabedoria, e em que o Tripiaka , ou base canónica do Budismo, ficou convencionalmente repartido, fundamental ao Theravāda mas também à corrente Mahāyāna, derivando assim dos textos já compilados no antigo Cânone Pāli.
 
Os territórios entre a Bacia do Ganges e os Himalayas e os lugares originais do Budismo

Deste modo, no contexto de consolidação do Budismo, a articulação de itinerários como os que ficaram subjacentes aos Aṣṭamahācaitya, veio a comportar a peregrinação, não apenas por lugares associados à vida de Gautama, como também pelos sítios onde propriamente Buda proferiu ensinamentos, e que, além de templos e mosteiros, resultaria igualmente na fundação de escolas e arquivos que consolidaram sabedoria, conservando-se os textos resultantes do esforço de compilação dos Concílios. Fora, de resto, pela pregação que surgira o qualificativo de Siddhārta Gautama como Śākyamuni, ou o “Sábio dos Śākya
” e epíteto predilecto usado pelas correntes do Budismo Mahāyāna, salientando o sentido de comunicação de Gautama Buda.

Certo é, quase mil anos depois da existência de Buda, o seu legado saira já dos territórios de origem no Norte e Centro da Índia para a sua circum-vizinhança – e chegando por fim à China. Em reforço dessa expansão cada vez mais para o Extremo-Oriente, esteve o protagonismo de Faxian, cujo final de viagem decorreu num mosteiro emaliputra (Patna), que fora a capital imperial de Ashoka. Tendo seguido os passos de Buda, de Rajgir até Bodh-Gaya, Faxian retornou a Varanasi, não sem fazer ainda uma outra célebre incursão até territórios centrais para visitar um mosteiro consagrado a Kassapa Buddha.

Foi daí que se dirigiu a aliputra (Patna) onde se recolheu num mosteiro Mahāyāna para estudar junto de um Mestre, que identificou com o nome de Radhasami, e onde estavam também vários outros sábios e uma multidão de monges e estudantes. Conforme contou no seu relato, Faxian ficou aí durante três anos, aprendendo Sânscrito e finalmente copiando e depois traduzindo as regras monásticas, ou Mahasanghika, expostas na Vinayāpiaka, conforme um exemplar ali conservado (e contando que havia outro idêntico no Jetāvana).
Ao fim desse tempo, encetou a rota de regresso desta vez por mar, passando o Śrī Lakā (Ceilão) e a actual Indonésia carregado de tais cópias e demais textos na sua bagagem, que salvaguardou, lançando fora até outros pertences pessoais nas ocasiões de grandes tempestades apenas para proteger o que constituía sem dúvida um tesouro dos céus. Tão só agradeceu ao divino ter merecido a sua protecção e os escritos que conservou passaram para o futuro.

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Manuel F.S. Patrocínio

Universidade de Évora – ECS Escola de Ciências Sociais, Departamento de História
CHAM – Centro de Humanidades NOVA UAc

Referências – Chavannes, E. Voyage de Song Yun dans l’Udhyana et le Gandhara. Bulletin de l’Ecole française d’Extrême-Orient. 3 (1903), 379-441. Frankopan, P. The Silk Roads – A New History of the World (Londres, 2015). Gettin, R. The Foundations of Buddhism (Oxford, 1998). Guang Xing. The Concept of Buddha (Abingdon – Nova Iorque). Huntington, J.C. Sowing the Seed of the Lotus – A Journey to the Great Pilgrimage Sites of Buddism. Orientations. Vol. 17 - 9 (1986), 46-58. Legge, J. ed. A Record of Buddhistic Kingdoms, by Fâ-Hien (Oxford, 1886). Norman, K.R. A History of Indian Literature, Vol. 7 – 2: “Páli Literature” (Wiesbaden, 1983). Sen, T. The Travel Records of Chinese Pilgrims Faxian, Xuanzang, and Yijing. Education About Asia. Vol. 11 -3 (2006). Weerawardane, P. Journey to the West – Dusty roads, stormy seas and transcendence. BiblioAsia. Vol. 5 - 2 (2009), 14-18.

Fonte das imagens: Wikimedia Commons.





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